A Justiça do Rio de Janeiro acolheu a denúncia apresentada pelo Ministério Público contra Jorge Luiz Fernandes, que atuou como ex-chefe de gabinete de Carlos Bolsonaro na Câmara de Vereadores, e outros seis ex-assessores. Com esta decisão, os acusados se tornaram réus pelos crimes de organização criminosa e peculato, que consiste no desvio de dinheiro público, em um esquema de 'rachadinha' que teria operado na Casa legislativa. O vereador Carlos Bolsonaro, embora tenha sido objeto de investigação, não figura na lista de denunciados neste processo específico, mas uma apuração sobre seu possível envolvimento segue em andamento.
A Decisão Judicial e as Acusações Formais
O juiz Marcello Rubioli, da 1ª Vara Criminal Especializada em Organização Criminosa, foi o responsável por aceitar a denúncia. Em sua sentença, o magistrado enfatizou que a investigação demonstrou de forma robusta a existência de um esquema de 'rachadinha' operando no gabinete do vereador, e que havia 'justa causa para o recebimento da denúncia', evidenciando a materialidade e os indícios de autoria dos crimes. A ação marca um avanço significativo nas apurações sobre desvio de verbas públicas.
A Liderança do Esquema e o Mecanismo de Desvio
Conforme detalhado no documento judicial, Jorge Luiz Fernandes é apontado como o 'líder e mentor da organização criminosa'. Nomeado em 2001 e assumindo a chefia de gabinete em 2018, ele é descrito como 'amigo da família Bolsonaro' e o principal articulador da nomeação dos demais envolvidos no esquema. A dinâmica da 'rachadinha' consistia em cada assessor, após receber seus salários, realizar transferências bancárias ou saques em benefício direto de Jorge, configurando o desvio sistemático de recursos públicos destinados aos gabinetes.
Movimentações Financeiras e o Envolvimento dos Demais Réus
As investigações revelam que os seis servidores denunciados teriam repassado um total de R$ 1,9 milhão ao então chefe de gabinete, Jorge Fernandes. Entre os réus, destaca-se Regina Célia, esposa do ex-chefe de gabinete, nomeada em 2005, que é acusada de ter repassado mais de R$ 800 mil para a conta do marido. Outra assessora, Juciara da Conceição Raimundo da Cunha, é mencionada como a responsável pela segunda maior quantia movimentada, cerca de R$ 650 mil, através de saques e transferências também direcionados a Jorge Fernandes, ilustrando a amplitude das operações financeiras irregulares.
A Linha do Tempo da Investigação e o Caso de Carlos Bolsonaro
O esquema de 'rachadinha' teria perdurado por um longo período, de junho de 2005 a dezembro de 2021, abrangendo todos os mandatos de Carlos Bolsonaro como vereador no Rio. A denúncia contra os ex-assessores, agora aceita, foi inicialmente apresentada em setembro de 2024. Naquela ocasião, o Ministério Público havia decidido arquivar a apuração contra o próprio vereador, argumentando, através do promotor Alexandre Murilo Graça, que depoimentos e laudos não indicavam circulação de valores ou pagamentos diretos a Carlos Bolsonaro. Contudo, no início de 2025, o juiz Thales Nogueira Cavalcanti Venâncio Braga discordou dessa conclusão, identificando omissões e contradições na investigação, e remeteu o caso à Procuradoria-Geral de Justiça. Em março deste ano, o MP do Rio resolveu reabrir a investigação contra Carlos Bolsonaro por suspeita de participação na 'rachadinha', processo que se encontra em fase de apuração.
Próximos Passos no Processo Legal
Com a aceitação da denúncia, a Justiça estabeleceu um prazo de 10 dias para que os sete réus apresentem suas defesas por escrito. Após a análise das explicações individuais de cada um, o juiz responsável pelo caso procederá à marcação das datas para os depoimentos das testemunhas. Este trâmite dará prosseguimento à fase de instrução processual, visando a elucidação completa dos fatos e a aplicação da lei.
A decisão de tornar sete indivíduos réus por crimes de organização criminosa e peculato sublinha a gravidade das acusações e o empenho do sistema judiciário em combater a corrupção. Enquanto o processo contra os ex-assessores avança, a investigação reaberta contra Carlos Bolsonaro mantém o foco público na questão da 'rachadinha' na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. A reportagem da GloboNews tentou contato com todos os citados, mas não obteve resposta até o momento da publicação.