O impacto da política previdenciária de Javier Milei
O modelo de ajuste fiscal implementado pelo presidente argentino Javier Milei tornou-se o centro de um acalorado debate político no Brasil. A promessa de campanha de Flávio Bolsonaro (PL) de aplicar um “tesouraço” nas despesas públicas, tendo a gestão argentina como referência, provocou reações imediatas. Enquanto o candidato do PL nega que o ajuste recairá sobre aposentadorias ou programas sociais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) exige explicações sobre o real alcance das medidas propostas.
A inspiração na política de Milei, defendida pela economista Daniella Marques, coordenadora da equipe econômica da campanha de Flávio Bolsonaro, ganha contornos práticos ao observarmos os dados da Previdência Social argentina. Entre o primeiro semestre de 2024 e o mesmo período de 2026, o número de novos ingressantes no sistema previdenciário do país vizinho caiu de 213,9 mil para 99,6 mil, uma redução de 53%. Esse cenário foi impulsionado, em grande parte, pelo fim da moratória previdenciária, que permitia a regularização de períodos sem contribuição para trabalhadores que atingiam a idade mínima.
Mudanças na fórmula de cálculo e perda de poder de compra
Além das restrições de acesso, o governo argentino alterou a lógica de reajuste dos benefícios. Por meio do Decreto de Necessidade e Urgência (DNU) 274 de 2024, a fórmula de atualização, que anteriormente considerava a variação salarial e a arrecadação, foi substituída por um reajuste mensal baseado exclusivamente nos índices oficiais de inflação. Para especialistas, essa mudança consolidou a perda do poder de compra que o setor já enfrentava desde 2018.
O Centro de Economia Política Argentina (Cepa) aponta que a nova metodologia reduziu o piso mínimo das aposentadorias em 21,6% até junho de 2026, comparado ao que seria pago pela regra anterior. O advogado argentino Luciano González Etkin, especialista em seguridade social, reforça que a suspensão de mecanismos que garantiam ganhos reais condenou os beneficiários a um patamar de estagnação econômica, agravando a vulnerabilidade social da terceira idade.
Cortes em subsídios e a crise dos medicamentos
A precarização da vida dos idosos na Argentina não se restringe aos valores nominais dos benefícios. O Instituto Nacional de Serviços Sociais para Aposentados e Pensionistas (Pami) restringiu, em dezembro de 2024, o acesso à gratuidade de medicamentos. Atualmente, o benefício é limitado a aposentados com renda mensal de até 1,5 vez o valor do benefício mínimo, deixando uma parcela significativa da população desassistida.
A situação tem levado a protestos semanais em Buenos Aires. Segundo cálculos do Espaço Gerontovida, a aposentadoria mínima atual — que em outubro de 2026 atingiu $ 505.748,51 pesos, incluindo um bônus fixo — cobre apenas cerca de 25% das necessidades básicas de um idoso. O Congresso argentino chegou a aprovar projetos para reajustar os valores e vincular o benefício à cesta básica, mas todas as iniciativas foram vetadas integralmente pelo presidente Milei sob a justificativa de falta de recursos orçamentários.
O debate sobre o futuro da previdência e o controle de gastos públicos continua sendo um dos temas mais sensíveis da agenda econômica regional. Continue acompanhando o Canal 1 de Notícias para atualizações detalhadas sobre os desdobramentos dessa disputa e como as decisões internacionais impactam o cenário político e social brasileiro.
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