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A Voz Incansável da Memória: 53 Anos de Luta por Justiça e Verdade na Ditadura

© Paulo Pinto/Agencia Brasil

Cinco décadas após os brutais anos da ditadura militar no Brasil, a luta pela verdade e memória persiste, encarnada na figura da professora e ativista Victória Grabois. Tendo perdido seu pai, Maurício, seu irmão, André, e seu marido, Gilberto Olímpio, em 1973, assassinados na região da Serra do Araguaia por agentes do Estado enquanto defendiam o fim do regime de exceção, Victória, aos 82 anos, continua firme em sua missão. Ela reitera: “Não posso parar e faço tudo o que eu puder fazer para divulgar a memória e acabar com o silenciamento”, um eco da promessa de uma vida dedicada à reparação histórica e à exigência de justiça.

Uma Luta Contínua pela Transparência e Reconhecimento

Apesar do tempo decorrido, Victória Grabois mantém um clamor irrenunciável pela abertura dos arquivos militares. Ela expressa a dor e a persistência na busca: “Quero que abram os arquivos e que digam onde mataram, como mataram e quando mataram”, uma demanda que ressoa a angústia de inúmeras famílias cujos entes queridos tiveram seus corpos negados e suas histórias silenciadas. Para ela, que conviveu com o pai, Maurício, até seus 29 anos – e dele guarda a memória de um “grande homem” de princípios que se sacrificou pela liberdade e democracia –, a ausência de informações definitivas sobre o paradeiro dos corpos é uma ferida aberta, jamais cicatrizada.

A Retificação Histórica: Certidões de Óbito e o Reconhecimento do Estado

Em um passo significativo rumo ao reconhecimento oficial das atrocidades do período, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), em colaboração com a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), realizou a entrega de mais 27 atestados de óbito retificados. O evento, sediado na Universidade Federal da Bahia (UFBA), em Salvador, nesta terça-feira (31), incluiu o documento de Maurício Grabois. A retificação inseriu a causa da morte como “ação violenta do Estado”, um reconhecimento crucial da responsabilidade estatal. Maurício, além de pai de Victória, foi um deputado constituinte em 1946 e deixou um legado de escritos reunidos por sua família. Embora não presente na cerimônia em Salvador, Victória, cofundadora do movimento Tortura Nunca Mais e residente no Rio de Janeiro, enfatiza a necessidade de que o Estado vá além da retificação, atuando ativamente na investigação dos crimes da ditadura.

Memória Viva: Cultura, Homenagens e o Diálogo com o Presente

A construção da memória não se restringe aos documentos oficiais. Victória Grabois destaca a importância de produções culturais, como os recentes filmes brasileiros sobre a ditadura que alcançaram projeção no Oscar. Segundo ela, essas obras foram essenciais para “furar a bolha”, tornando a história daquele período – que completa 62 anos – mais acessível e compreensível para um público amplo, incluindo estudantes e escolas que, antes, demonstravam menor interesse. A ativista aponta que muitos só recentemente tomaram conhecimento das violações e da Guerrilha do Araguaia, por exemplo. Em paralelo a esses esforços, o movimento Tortura Nunca Mais, em sua 38ª edição, concedeu a medalha “Chico Mendes” a defensores dos direitos humanos. A homenagem deste ano recordou figuras como o guerrilheiro Francisco Manuel Chaves e a socióloga Yara Yavelberg, ambos mortos pela ditadura, e estendeu-se a mães que hoje perdem filhos para a violência policial, como Solange de Oliveira, fundadora do Movimento Mães em Luto da Zona Leste, em São Paulo, traçando um paralelo doloroso entre as violações do passado e do presente.

Desafios Persistentes e a Busca por Respostas Finais

A presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), Eugênia Gonzaga, ressalta que a retificação das certidões de óbito representa uma das mais importantes medidas de reparação, com o objetivo de alcançar 434 retificações e a esperança de entregas solenes com pedidos de desculpas oficiais. Contudo, Gonzaga critica veementemente a contínua falta de abertura completa dos arquivos das Forças Armadas, um obstáculo persistente à verdade. Ela lamenta que, apesar de documentos já revelados, “não se tem a versão definitiva sobre o local das mortes, ou melhor, sobre as circunstâncias de muitas das mortes e os locais de enterro de corpos”. Essa lacuna, segundo ela, constitui uma falha do sistema de justiça brasileiro, que ainda não forneceu respostas definitivas às famílias das vítimas da ditadura. Além de Maurício Grabois, outros nomes emblemáticos, como Carlos Lamarca e Stuart Edgar Angel Jones, filho da estilista Zuzu Angel, estão entre os que tiveram suas certidões prontas para entrega, juntamente com Antônio Carlos Monteiro Teixeira e Célio de Castro.

A saga de Victória Grabois e de tantas outras famílias brasileiras é um lembrete vívido de que a justiça, a memória e a verdade são pilares inegociáveis para uma democracia plena. Passados 53 anos do golpe que instaurou a ditadura, a incessante busca por respostas e o reconhecimento do papel do Estado na violência daquele período continuam a ser um imperativo moral e um legado de resistência que insiste em não se calar.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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