A proposta de tarifa zero no transporte público, anunciada pelo governo federal, prevê a gratuidade do transporte coletivo aos finais de semana e seria viabilizada por meio de uma PEC enviada ao Congresso Nacional. Para Marcos Mendes, pesquisador associado do Insper, o conjunto de medidas do chamado pacote de bondades carece de embasamento técnico e pode aprofundar as crises econômica e institucional do Brasil.
Em entrevista recente, o especialista afirmou que o governo tem lançado uma série de iniciativas com forte apelo eleitoral, mas sem pesquisas ou avaliações adequadas sobre seus efeitos práticos. Segundo ele, não há estudos aprofundados sobre os impactos econômicos e sociais da gratuidade no transporte coletivo, prevalecendo apenas estimativas superficiais e foco político.
Falta de transparência e riscos estruturais no transporte público
O pesquisador também destacou a ausência de transparência na arrecadação das concessionárias de transporte público como um entrave central para o setor. Muitas prefeituras operam sem informações precisas sobre o faturamento real das empresas ou sobre o volume exato de viagens realizadas cotidianamente pelos cidadãos.
Nesse cenário, ampliar repasses públicos sem assegurar controle rigoroso sobre a operação é visto como uma medida arriscada. O problema ganha ainda mais complexidade diante de apurações e debates públicos sobre eventuais conexões entre operadores de transporte e estruturas do crime organizado em diferentes regiões do país.
Distorções institucionais e fragilidade fiscal
Mendes criticou o que classificou como inércia dos órgãos de controle e das instâncias responsáveis por fiscalizar a observância das regras fiscais. Para o economista, a Lei de Responsabilidade Fiscal tem sido flexibilizada sem reações enérgicas das instituições de supervisão, comprometendo os mecanismos tradicionais de freios e pesos da democracia.
Além disso, o especialista apontou distorções em programas de apoio governamental, como o regime do Microempreendedor Individual. De acordo com os dados citados, uma parcela expressiva dos beneficiários está situada nas faixas de maior renda, o que desvirtuaria o propósito original de inclusão social da política pública.
Alertas sobre riscos de inflação e estagflação
Ao projetar os desdobramentos macroeconômicos do pacote, o pesquisador alertou para o risco de pressões inflacionárias, elevação dos juros e maior endividamento das famílias. Com a atividade econômica desacelerando, o país correria o risco de ingressar em um ciclo de estagflação, marcado pela combinação de estagnação produtiva e alta de preços.
Por fim, o especialista avaliou que, independentemente do desfecho político das próximas urnas, o próximo governo enfrentará severos desafios para recompor o equilíbrio fiscal e conter a trajetória de crescimento da dívida pública nacional.
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