Uma jovem de 22 anos, internada na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Zona Noroeste, em Santos (SP), denunciou uma técnica de enfermagem por condutas racistas e gordofóbicas. A paciente, que recebia tratamento para pneumonia, alega ter sido alvo de comentários ofensivos sobre seu cabelo e seu peso corporal, transformando o período de vulnerabilidade em uma experiência de profunda angústia e constrangimento. O caso acende um alerta sobre a necessidade de um atendimento humanizado e livre de preconceitos em ambientes de saúde.
O Incidente e a Série de Ofensas Discriminatórias
Os episódios de injúria, segundo a vítima, tiveram início na manhã de quinta-feira, 12 de outubro, dias após sua internação. A situação se agravou após o médico informar a possibilidade de alta hospitalar. Em um tom de deboche, a técnica de enfermagem teria dito à jovem que era "bom" ela receber alta para lavar seu "cabelo duro", descrevendo-o como "embolado, cacheado e fedido", e que precisava "arrumar, pentear e tomar banho direito". A paciente relatou ter ficado em completo choque e sem reação diante da agressão verbal.
Pouco depois, durante uma tentativa de aferição da pressão arterial, a profissional continuou com as ofensas. Ao constatar um erro no aparelho, a técnica de enfermagem teria afirmado que o braço da jovem era "muito gordo" e que seria necessário um equipamento maior "porque [ela] comia muito doce". A conduta escalou com a profissional procurando doces na mochila da paciente e, ao recusar um doce oferecido, mencionou que tomava Mounjaro – medicamento indicado para diabetes e obesidade – e, em tom de escárnio, sugeriu que a paciente também "deveria parar de comer".
Reação Imediata e o Impacto na Paciente
Abalada e indignada, a jovem relatou os acontecimentos ao médico que a acompanhava, o qual prontamente acionou a coordenação da unidade. Em um primeiro contato com a enfermeira chefe, a técnica de enfermagem reconheceu ter feito os comentários, mas os minimizou como "apenas uma brincadeira", justificando ter um "marido negro e acima do peso". Essa explicação, no entanto, não aplacou a dor da vítima, que classificou a experiência como "uma situação grave de racismo e tratamento desumano".
Sentindo-se insegura e percebendo hostilidade por parte de outras enfermeiras após a denúncia, e sem a permissão para ter um acompanhante, a paciente solicitou alta hospitalar antecipada. Ela deixou a UPA sem estar totalmente recuperada, enfatizando a importância de que nenhum paciente seja submetido a tratamento discriminatório em um ambiente de saúde, especialmente em um momento de fragilidade.
As Investigações e as Medidas Adotadas
Diante da gravidade das acusações, a paciente registrou denúncias formais em várias instâncias: na ouvidoria municipal de Santos, no Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP) e na Polícia Civil, buscando a responsabilização da profissional envolvida.
A Prefeitura de Santos, por meio da Secretaria de Saúde, pronunciou-se informando que a ocorrência será criteriosamente apurada em parceria com a organização social responsável pela gestão da UPA Zona Noroeste. A administração municipal reforçou que não compactua com ações discriminatórias, reiterando seu compromisso com o atendimento humanizado em todas as suas unidades. O Coren-SP, por sua vez, abriu uma sindicância para investigar o caso, assegurando que o processo seguirá em sigilo e que, se houver indícios de infração ética, um processo ético-profissional será instaurado, em consonância com o compromisso do conselho com uma enfermagem livre de preconceitos.
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) confirmou que a denúncia foi registrada como injúria na Delegacia Eletrônica e encaminhada para o 5º Distrito Policial de Santos. A vítima foi devidamente orientada sobre o prazo legal de seis meses para formalizar a representação criminal contra a autora das ofensas.
Conclusão e a Busca por Justiça
O episódio na UPA da Zona Noroeste evidencia a urgente necessidade de combater o racismo e a gordofobia em todos os setores da sociedade, inclusive na saúde. A denúncia corajosa da paciente é um passo crucial para promover a conscientização e exigir a responsabilização de profissionais que desrespeitam a dignidade humana. A expectativa agora se concentra na transparência e eficácia das investigações, para que a justiça seja devidamente aplicada e para que todas as instituições de saúde se tornem ambientes seguros, acolhedores e livres de qualquer forma de discriminação, reafirmando o compromisso com o cuidado integral e respeitoso a cada indivíduo.
Fonte: https://g1.globo.com