A busca por flexibilidade na revisão tarifária
A Sabesp, companhia responsável pelo saneamento básico em grande parte do estado de São Paulo, formalizou um pedido à Agência Nacional das Águas e Saneamento Básico (ANA) visando alterar o tratamento contábil dos gastos com energia elétrica. A solicitação, apresentada no âmbito da Consulta Pública nº 003/2026, propõe que uma parcela significativa das despesas energéticas seja classificada como custo não gerenciável, ou seja, fora do controle direto da empresa.
A empresa argumenta que o consumo de energia em suas operações não é estritamente uma variável de eficiência administrativa, mas um reflexo de fatores geográficos e climáticos. Segundo a companhia, o relevo, a distância entre sistemas produtores e as exigências impostas por crises hídricas impõem demandas de bombeamento que fogem ao planejamento convencional.
Fatores operacionais e o impacto do relevo
A justificativa técnica enviada à agência reguladora destaca que o aumento no consumo de energia, em muitos cenários, é uma resposta necessária para garantir a continuidade do abastecimento. A Sabesp aponta que, em momentos de escassez, a intensificação do bombeamento e a transferência de água entre reservatórios tornam-se indispensáveis para a segurança hídrica da população.
Ao solicitar essa reclassificação, a empresa defende que a mudança não deve ser aplicada de maneira automática. A proposta prevê que a classificação como custo não gerenciável dependa de demonstrações técnicas específicas, garantindo que a exceção seja utilizada apenas para eventos que fujam da capacidade de mitigação do prestador de serviço.
O debate sobre riscos e eficiência na regulação
O tema divide opiniões entre especialistas do setor. Jerson Kelman, ex-diretor-geral da Aneel e ex-presidente da ANA, observa que a regulação deve separar o risco de preço do risco de quantidade. Para ele, a volatilidade no preço da energia pode ser gerida pela companhia por meio de mecanismos de mercado, como a contratação no mercado livre, incentivando assim uma gestão de compras mais eficiente.
Por outro lado, Kelman reconhece que as variações no volume de energia consumida — decorrentes de topografia ou de eventos climáticos extremos, como os registrados na crise hídrica de 2014 e 2015 em São Paulo — devem ser tratadas com critérios distintos. O especialista defende que a reguladora evite indicadores padronizados que ignorem as particularidades de cada concessionária, sugerindo uma análise mais granular das condições operacionais.
Desafios adicionais e reflexos tarifários
Além da questão energética, a Sabesp busca revisões nos critérios de avaliação de eficiência operacional. A empresa propõe que a comparação com outras concessionárias seja feita apenas quando houver similaridade de porte e escala. Paralelamente, o setor de saneamento enfrenta o desafio de adaptar o equilíbrio econômico-financeiro à reforma tributária, um processo que gera incertezas contábeis e operacionais.
Christianne Dias, diretora-presidente da Abcon, reforça que, como o setor é remunerado via tarifas, qualquer elevação de custos operacionais acaba, inevitavelmente, sendo repassada ao consumidor final. O desfecho desta consulta pública será determinante para definir como esses custos serão absorvidos ou compartilhados nos próximos ciclos tarifários.
O Canal 1 de Notícias segue acompanhando os desdobramentos desta consulta pública e os impactos das decisões da ANA para o setor de saneamento. Continue conosco para se manter informado sobre as mudanças que afetam a infraestrutura e a economia do país.
Mais sobre este assunto
Ciclista mineiro resgata cão abandonado em estrada de Goiás e garante novo lar
Ataque de drones atinge refinaria russa em Ryazan após fim de trégua energética
Ovelhas usam máscaras em pomar de pêssegos no Rio Grande do Sul para otimizar produção
Custo elevado impede continuidade do tratamento com canetas emagrecedoras para 65% dos pacientes


