O Parque Nacional da Serra da Capivara, no Sul do Piauí, é hoje um dos maiores símbolos da riqueza arqueológica e cultural do Nordeste brasileiro. O reconhecimento internacional da área, que abriga a maior concentração de sítios pré-históricos das Américas, está intrinsecamente ligado à trajetória de Niède Guidon. A arqueóloga franco-brasileira, que dedicou mais de cinco décadas à preservação da região, deixou um impacto que transcende a ciência, alterando profundamente a realidade socioeconômica das comunidades locais.
A trajetória de uma pesquisadora que adotou o Piauí
Nascida em São Paulo, Niède Guidon escolheu o interior do Piauí como seu campo de vida e trabalho. Sua dedicação incansável aos estudos sobre o povoamento do continente americano colocou a Serra da Capivara no mapa global da arqueologia. Em 1991, sob sua liderança e influência, a área recebeu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, um marco que impulsionou a proteção do patrimônio e o desenvolvimento do turismo sustentável no sertão.
Mais do que uma cientista, Guidon foi vista pelos moradores de São Raimundo Nonato e arredores como uma figura local. Entre os funcionários do parque, era carinhosamente chamada de “capivarense”. Marian Rodrigues, atual chefe da unidade de conservação, define a arqueóloga como uma “legítima caatingueira”. Segundo ela, Guidon não apenas estudou a terra, mas criou raízes profundas, mudando a trajetória de vida de centenas de pessoas que encontraram no parque uma fonte de dignidade e sustento.
Impacto social e empoderamento feminino
Um dos pilares do legado de Niède Guidon foi a inclusão social das populações que vivem no entorno do parque. Uma das iniciativas mais emblemáticas, idealizada pela pesquisadora, é o projeto que emprega mais de 60 mulheres como guariteiras. Elas são responsáveis pelo controle de acesso e pela preservação direta das trilhas e sítios arqueológicos. Para muitas dessas mulheres, o trabalho representa uma ruptura com ciclos de vulnerabilidade.
Diana Maria de Assis, uma das profissionais que atuam na guarita, destaca o papel transformador dessa gestão. “Para mim, é um privilégio muito grande trabalhar em um parque como este, em uma unidade tão importante. Também sou muito grata à doutora Niède por ter acolhido as mulheres”, relata. Esse modelo de gestão comunitária tornou-se uma referência em conservação ambiental, provando que a proteção do patrimônio histórico pode caminhar lado a lado com o desenvolvimento social.
Reconhecimento cultural e inspiração para futuras gerações
A influência de Niède Guidon ultrapassou os limites da academia, inspirando manifestações artísticas que celebram sua vida e obra. Desde músicas, como a composição de Zé Roraima, até livros ilustrados por crianças, a história da arqueóloga tornou-se parte da identidade regional. Valeska Zanello, coautora do livro Niède Guidon: a arqueóloga da humanidade, reforça que o exemplo da pesquisadora é fundamental para inspirar novas gerações de mulheres na ciência.
A arqueóloga faleceu em 4 de junho de 2025, aos 92 anos, em São Raimundo Nonato. Sua morte marcou o fim de um capítulo, mas o legado permanece vivo em cada sítio preservado e na consciência dos moradores que hoje protegem o parque como um tesouro próprio. O Canal 1 de Notícias segue acompanhando os desdobramentos sobre a preservação da Serra da Capivara e as homenagens que perpetuam a memória desta figura central para a história do Brasil. Continue conosco para mais atualizações sobre cultura, ciência e desenvolvimento regional.
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