A América do Sul enfrenta um dilema histórico que limita sua influência nas decisões globais: a incapacidade de converter suas vastas vantagens econômicas em um projeto comum de inserção internacional. Segundo Alberto Pfeifer, coordenador-geral do grupo de Defesa, Segurança e Inteligência da USP, a ausência de uma agenda coesa de integração regional mantém os países do continente em uma posição de menor peso estratégico, impedindo que a região atue como um bloco influente.
O especialista aponta que a trajetória sul-americana foi marcada por uma especialização excessiva em vantagens comparativas, como a exportação de recursos naturais, energia, minérios e produtos agrícolas. Embora essa estratégia tenha garantido resultados econômicos imediatos, como a liderança do Brasil na chamada “tecnologia tropical” e o papel de exportador global de commodities, ela não foi acompanhada por um planejamento político-estratégico de longo prazo.
A falha na construção de um plano de integração
Para Pfeifer, o erro fundamental não reside na exploração das riquezas naturais, mas na falta de uma visão coletiva. “Ficou faltando a concepção de um plano de inserção e um plano de integração. Já que todos têm vantagens em commodities, vamos nos unir e jogar isso em relação ao mundo”, afirmou em entrevista ao programa WW Especial. Sem essa união, a região tornou-se dependente de lógicas tecnológicas externas, importando produtos de alto valor agregado e serviços, o que aprofundou a defasagem econômica à medida que os preços das commodities perderam força no mercado internacional.
O histórico de tentativas frustradas de união
O cenário de desarticulação é reforçado por décadas de tentativas de integração que, segundo o especialista, não produziram os efeitos esperados. O Mercosul, que teve um período de maior dinamismo nos anos 1990, perdeu fôlego ao longo do tempo. Da mesma forma, iniciativas como a Aliança do Pacífico — composta por México, Chile, Peru e Colômbia — não conseguiram consolidar uma interlocução robusta com os mercados asiáticos, como era o objetivo inicial.
Pfeifer atribui esse fracasso à alternância de poder dentro de cada país, que gera um “seccionamento de encaminhamento estratégico”. Essa instabilidade política impede a continuidade de políticas de Estado que transcendam os governos de turno, deixando a região sem um fio condutor que oriente sua atuação externa.
Segurança como possível eixo de convergência
Diante da falta de uma agenda propositiva, a segurança surge como um possível ponto de convergência, embora Pfeifer faça uma ressalva importante. O tema, da forma como é tratado atualmente, possui uma natureza mais defensiva. “Nós não estamos propondo uma agenda de criação de valor, estamos propondo uma agenda de contenção de destruição de valor”, explica o especialista.
Para que essa pauta se torne um motor de integração real, ela precisaria evoluir para um compromisso efetivo entre os países no combate ao crime organizado, atendendo a um anseio comum das populações sul-americanas. A transformação dessa necessidade em uma política regional integrada poderia, segundo o especialista, ser o primeiro passo para que a América do Sul recupere sua relevância geopolítica.
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