Impacto na rotina da Colônia de Pescadores Z-1
A Bacia do Pina, um importante estuário onde convergem os rios Tejipió, Jordão, Jiquiá e um braço do Capibaribe antes de encontrarem o Oceano Atlântico, tornou-se palco de um impasse entre o desenvolvimento portuário e a subsistência de comunidades tradicionais. Cerca de 1,2 mil profissionais, vinculados à Colônia de Pescadores Z-1 do Pina, relatam uma queda drástica na produtividade pesqueira desde o início das obras de dragagem no Porto do Recife, em junho deste ano.
A principal queixa dos trabalhadores é o aumento da presença de resíduos sólidos, como plásticos, em suas redes e armadilhas. Segundo Sandra Lima, presidente da colônia, o material retirado do fundo do mar durante a sucção estaria sendo transportado para áreas de pesca em alto-mar, comprometendo a captura de crustáceos e peixes. “Na temporada de lagosta, quem pescava 30kg não está pegando nem dez quilos porque só vem lixo nos covos”, relata a líder comunitária.
O projeto de expansão e a controvérsia ambiental
As obras, orçadas em R$ 92 milhões, visam aprofundar os canais interno e externo do terminal portuário de 10 para 12 metros. O objetivo central da administração é permitir a atracação de navios de maior porte, ampliando a capacidade de exportação da capital pernambucana. Para mitigar danos, o Porto do Recife afirma que utiliza um barco de apoio para recolher resíduos que escapam durante a sucção de lama e areia.
O professor Múcio Banja, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), explica que o cenário é complexo. Embora os rios sejam os maiores responsáveis pelo transporte de resíduos plásticos urbanos até a costa, a dragagem pode atuar como um agente que “redisponibiliza” esses materiais. Ao remover o sedimento do fundo, o processo pode colocar em suspensão resíduos que estavam ali depositados, facilitando que correntes e ventos os levem de volta a áreas de pesca.
Posicionamento do Porto do Recife
A administração do terminal portuário contesta a relação direta entre a obra e a queda na pesca. Alexandre Costa, coordenador de projetos do Porto, classificou como “improvável” que a dragagem seja a causa dos prejuízos relatados. Segundo o gestor, as embarcações operam sob monitoramento rigoroso e realizam o despejo de sedimentos apenas em locais autorizados pela Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) e pela Capitania dos Portos, situados a seis milhas náuticas de distância.
Para o Porto, a redução na captura pode estar ligada a fatores sazonais, como o excesso de turbidez da água nesta época do ano, e não à intervenção humana. A administração reforça que as áreas de descarte são estritamente técnicas e não possuem finalidade de exploração pesqueira.
Atuação do Ministério Público Federal
Diante do impasse, o Ministério Público Federal (MPF) abriu um procedimento para investigar os impactos ambientais e sociais da obra. O órgão busca verificar se o cronograma e os métodos de execução estão em conformidade com as normas ambientais vigentes. O procurador da República Antônio Nilo Rayol coordena um canal de diálogo que reúne pescadores, representantes do Porto e a empresa terceirizada responsável pela execução do serviço.
Uma das frentes de negociação envolve a possibilidade de uma compensação financeira para as famílias afetadas. O MPF defende que, caso o prejuízo seja comprovado, o período em que o pescador ficou impossibilitado de exercer sua profissão gera um direito indenizável. Embora não haja um acordo firmado, o órgão mantém a mediação como prioridade, sem descartar a via judicial caso não se chegue a um modelo que concilie o desenvolvimento econômico com a proteção social e ambiental.
O Canal 1 de Notícias segue acompanhando o desdobramento deste caso e os impactos das obras portuárias na região. Continue conosco para se manter informado sobre esta e outras pautas relevantes para o cenário regional e nacional, com o compromisso de levar até você uma cobertura apurada e transparente.
Mais sobre este assunto
Agronegócio e conflitos fundiários marcam cidades baianas onde Flávio venceu Lula
Estudo liga sintomas de covid longa a queda nos níveis de dopamina no cérebro
Integração regional: a fragilidade estratégica da América do Sul no cenário global
Sucessão familiar transforma bar tradicional em Diadema e triplica faturamento


