Uma clínica oftalmológica na cidade de Irecê, localizada no norte da Bahia, tornou-se o centro de uma complexa investigação policial após relatos alarmantes de dezenas de pacientes que sofreram perda parcial ou total da visão. A Polícia Civil cumpriu mandados de busca e apreensão na unidade, o Hospital Ceom, dando início a uma apuração detalhada sobre as intercorrências médicas que acometeram indivíduos submetidos a procedimentos cirúrgicos durante um mutirão oftalmológico.
Ação Policial e Suspensão de Atendimentos Estaduais
Na última segunda-feira (6), a Polícia Civil executou mandados de busca e apreensão nas dependências da clínica. Durante a diligência, foram recolhidos prontuários médicos e diversos documentos que serão submetidos a uma análise técnica minuciosa. O objetivo é esclarecer as circunstâncias que levaram aos problemas de saúde ocular relatados pelos pacientes.
Paralelamente à ação policial, a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (Sesab) também se manifestou diante do cenário. O órgão estadual informou que 26 pacientes apresentaram intercorrências após os procedimentos, manifestando sintomas como ardência e hiperemia ocular, caracterizada por vermelhidão. Diante da gravidade dos relatos, a Sesab agiu prontamente, suspendendo imediatamente o encaminhamento de novos pacientes para a unidade de saúde em questão, visando a segurança dos cidadãos.
O Drama dos Pacientes: Perda de Visão e Impacto Médico
A causa da investigação reside nos relatos de, pelo menos, 24 pacientes que perderam a visão após passarem por procedimentos na clínica, especificamente aplicações intravítreas, realizadas entre 27 e 30 de março. De acordo com um advogado que representa parte dos afetados, esse tipo de procedimento é amplamente considerado seguro e de rápida execução. Contudo, em Irecê, os pacientes teriam apresentado comprometimento visual em um ou ambos os olhos, com casos mais graves culminando na necessidade de retirada do globo ocular. A instituição, o Hospital Ceom, confirmou que presta assistência contínua a todos os pacientes afetados e acompanha de perto cada situação.
A Defesa da Clínica: Cooperação e Controvérsias
Em nota oficial, o Hospital Ceom detalhou que, durante o mutirão oftalmológico, foram realizados 643 procedimentos ambulatoriais e cirúrgicos, todos dentro dos critérios médicos estabelecidos e precedidos por exames. A unidade confirmou que 24 pacientes submetidos à terapia antiangiogênica apresentaram intercorrências no período pós-procedimento imediato, reforçando que estes seguem sob acompanhamento contínuo.
Sobre o cumprimento do mandado, a clínica declarou que recebeu as autoridades de forma respeitosa e colaborativa, mantendo um diálogo constante e prestando especial atenção à natureza sensível dos documentos médicos. O Ceom enfatizou que, em virtude do sigilo legal e das normas éticas que regem procedimentos dessa natureza, não poderá detalhar o conteúdo da diligência no momento. A instituição reafirmou seu compromisso em colaborar de forma transparente com as autoridades e disponibilizar cópias de prontuários aos solicitantes, conforme a Lei nº 13.787/2018 e as normas do Conselho Federal de Medicina.
Adicionalmente, o Hospital Ceom fez questão de esclarecer que um óbito recentemente noticiado ocorreu em outra instituição de saúde. A clínica informou não ter tido acesso à respectiva Declaração de Óbito até o momento, documento que é de responsabilidade dos familiares e é indispensável para qualquer análise técnica aprofundada do caso. O Ceom finalizou a nota reiterando seu compromisso com a ética, a segurança assistencial e o respeito aos pacientes.
Perspectivas da Investigação
A investigação em curso se desdobra em múltiplas frentes, com a Polícia Civil analisando os documentos apreendidos e a Sesab monitorando a saúde pública. A expectativa é que as apurações tragam clareza sobre as causas das intercorrências e determinem as responsabilidades. Para os pacientes, que enfrentam o trauma da perda da visão, a busca por respostas e justiça é primordial, enquanto a sociedade aguarda transparência e a garantia de que a segurança nos procedimentos médicos seja sempre a prioridade.
Fonte: https://g1.globo.com