Uma iniciativa para promover a mobilidade urbana em Cachoeirinha, na Região Metropolitana de Porto Alegre, tem se tornado foco de intensa controvérsia. A instalação de uma ciclofaixa sobre as calçadas da cidade gerou uma onda de críticas por parte de moradores, ciclistas e, principalmente, pessoas com deficiência. A preocupação central reside na execução do projeto, que, em diversos trechos, ignora princípios básicos de acessibilidade e segurança, transformando o que deveria ser um avanço em um obstáculo diário para muitos cidadãos.
Preocupação Crescente com a Segurança de Pedestres e Ciclistas
A pintura de faixas vermelhas, demarcando o espaço para bicicletas diretamente nas calçadas, levantou sérias dúvidas sobre o planejamento e a execução da obra. Muitos ciclistas, como o artesão Nei Bohrer, expressam descontentamento com a estreiteza e o desenho inadequado dos trechos, optando frequentemente por pedalar na rua, adjacente à ciclofaixa, devido à percepção de perigo e má organização. Essa escolha, no entanto, não mitiga os riscos para pedestres.
Para quem caminha, a situação é igualmente preocupante. A operadora de máquina Renata Batista descreve o trajeto como difícil, com a inesperada presença de bicicletas invadindo o espaço de trânsito dos pedestres. A convivência forçada e a velocidade dos ciclistas em áreas tradicionalmente reservadas para caminhantes geram uma constante sensação de insegurança, principalmente ao desembarcar de ônibus ou transitar por áreas de grande movimento.
Acessibilidade Comprometida: Pisos Táteis e Rampas Invadidas
Um dos pontos mais criticados e graves da implantação da ciclofaixa é a invasão de espaços essenciais para a mobilidade de pessoas com deficiência. Em múltiplos locais, a faixa vermelha foi pintada diretamente sobre o piso tátil, estrutura fundamental para a orientação de indivíduos cegos ou com baixa visão. Segundo Glailton Winckler, presidente da Associação de Pessoas Cegas e com Baixa Visão do Rio Grande do Sul (Acergs), esta é uma falha técnica gravíssima, que elimina a principal referência para a locomoção autônoma dessas pessoas.
A problemática se estende às rampas de acesso para cadeirantes, que também foram sobrepostas pela ciclofaixa, criando conflitos de uso e dificultando ainda mais a já desafiadora mobilidade. Celanira Barboza, instrutora de orientação e mobilidade da Acergs, alerta ainda para a escolha de cores vibrantes sobrepostas no piso tátil, que pode confundir e atrapalhar significativamente a percepção de pessoas com baixa visão, comprometendo a funcionalidade desse recurso vital.
Obstáculos Inesperados e Riscos Elevados de Acidentes
Além das invasões de espaços de acessibilidade, o projeto apresenta outras falhas estruturais que aumentam consideravelmente o risco de acidentes. Em pontos críticos, postes de energia elétrica foram deixados no meio da ciclofaixa, criando obstáculos imprevisíveis para os ciclistas. Essas interrupções são particularmente perigosas em uma via que se situa em uma área de alto fluxo de carros e caminhões, característico do distrito industrial do município.
Outro fator de risco notável é a passagem da ciclofaixa em frente a portas de estabelecimentos comerciais. O engenheiro mecânico Giovane Roman destaca a imprudência dessa configuração, que força pedestres e clientes a redobrar a atenção ao sair das lojas, pois se deparam imediatamente com o tráfego rápido de bicicletas, elevando a probabilidade de colisões.
Divergência de Responsabilidades: Prefeitura, Construtora e Ministério
As obras da ciclofaixa, que se inserem em um financiamento do governo federal datado de 2013 e já com 99% de conclusão, desencadearam uma disputa sobre a responsabilidade pelas irregularidades. Cláudio Ávila, assessor especial do gabinete da prefeita, defende que a empresa responsável pela execução deveria ter notificado o município sobre a impossibilidade técnica de certas instalações. Ele afirma que a prefeitura planeja remover a pintura irregular e está avaliando o momento, se com aval do governo federal ou após o término do contrato, previsto para abril.
Em contrapartida, a empresa construtora, através de seu engenheiro Álvaro da Silva Marques, alega ter comunicado a prefeitura em janeiro sobre as questões relativas ao projeto, assegurando que as dimensões da ciclovia obedeciam ao que foi planejado. A empresa aguarda um retorno oficial do município sobre as medidas a serem tomadas em relação ao piso tátil.
O Ministério das Cidades, por sua vez, esclareceu que a fiscalização e as solicitações de alteração do projeto em caso de irregularidades competem à prefeitura de Cachoeirinha. O órgão federal confirmou que o município pediu a alteração para implementar a ciclofaixa junto à calçada, mas ressaltou que não havia previsão para a obra sobre o piso tátil. A recomendação do Ministério é clara: a solução adequada é reinstalar o piso tátil em um novo local, garantindo assim a acessibilidade plena.
A Necessidade Urgente de Replanejamento e Soluções
A complexidade das falhas na ciclofaixa de Cachoeirinha expõe um planejamento deficiente que não considerou as necessidades de todos os usuários do espaço público. A disputa de responsabilidades entre as esferas municipal, a empresa construtora e o governo federal apenas posterga a resolução de um problema que afeta diretamente a segurança e a qualidade de vida da população. É imperativo que as autoridades ajam rapidamente para corrigir as irregularidades, repensando a infraestrutura de mobilidade para que ela seja verdadeiramente inclusiva e funcional, cumprindo o seu propósito de benefício público sem comprometer a acessibilidade e a segurança de nenhum cidadão.
Fonte: https://g1.globo.com