Quase 11 anos após o rompimento da barragem de Mariana, pescadores voltaram a exercer suas atividades na foz do Rio Doce, no Espírito Santo. A paisagem local, que durante uma década carregou as marcas da tragédia ambiental, volta a receber os barcos de trabalhadores que dependem diretamente do rio para o sustento de suas famílias. A mudança ocorre após a publicação de uma portaria do governo federal que autorizou a pesca na região costeira afetada pelo desastre.
Em novembro de 2015, mais de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério desceram o Rio Doce após o colapso da barragem em Minas Gerais, alcançando o mar capixaba. A contaminação generalizada levou à proibição da pesca na foz a partir de fevereiro de 2016, interrompendo uma tradição secular e impondo severas dificuldades financeiras e sociais aos moradores de localidades ribeirinhas e costeiras, como o distrito de Regência, no norte do estado.
liberação da pesca após aval técnico
A retomada das atividades pesqueiras foi autorizada por meio de uma portaria federal que abrange o trecho compreendido entre a Barra do Riacho, em Aracruz, até as praias de Degredo e Ipiranguinha, em Linhares. O texto estabelece um limite de até 20 metros de profundidade para a prática. A decisão administrativa baseou-se em uma nota técnica emitida pela Anvisa, indicando que os índices de contaminantes nos pescados da área monitorada encontram-se dentro de parâmetros considerados seguros no cenário atual.
Pesquisadores que acompanham a presença de metais em espécies como peixes, camarões e caranguejos registraram queda expressiva nos indicadores de contaminação. Segundo levantamentos científicos conduzidos na região, as amostras coletadas nos últimos dois anos apresentaram taxas de não conformidade inferiores ao limite estabelecido pelas autoridades sanitárias federais, fundamentando a liberação gradual da atividade.
monitoramento contínuo e cautela local
Apesar da autorização oficial, especialistas e órgãos competentes ressaltam que a recuperação socioambiental da bacia hidrográfica é um processo de longo prazo. O acompanhamento da qualidade da água, dos sedimentos e da fauna aquática prosseguirá pelos próximos dez anos, servindo de base para futuras avaliações dos impactos gerados pelos rejeitos minerários ao longo do tempo.
Representantes dos ministérios responsáveis informaram que a reabertura da pesca será acompanhada por um plano de ação integrado com pastas da saúde, garantindo que as diretrizes possam ser revistas caso ocorram alterações nos indicadores ambientais. Enquanto isso, trabalhadores locais dividem-se entre o alívio pela retomada econômica e a cautela diante dos desafios persistentes na relação com o rio.
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