O que parecia ser um evento neurológico grave revelou-se, na verdade, uma condição frequentemente subdiagnosticada e negligenciada. Aos 28 anos, a fisioterapeuta Jéssica Pasquale viveu o susto de ser internada em uma unidade de terapia intensiva (UTI) com suspeita de acidente vascular cerebral (AVC) após acordar com um lado do rosto dormente. Após quatro dias de exames exaustivos, o AVC foi descartado, mas a causa real de suas dores persistentes, que a acompanhavam desde a adolescência, permanecia um mistério para a equipe médica.
A resposta definitiva só surgiria anos depois, ao investigar a articulação temporomandibular (ATM). Jéssica, hoje com 33 anos, recebeu o diagnóstico de disfunção temporomandibular (DTM), um conjunto de distúrbios que afeta os músculos da mastigação e as estruturas articulares da mandíbula. O caso ilustra uma realidade enfrentada por milhares de brasileiros que, antes de encontrarem o tratamento adequado, percorrem uma longa jornada por diferentes consultórios, muitas vezes submetendo-se a intervenções desnecessárias.
A complexidade do diagnóstico e o impacto na qualidade de vida
A DTM não possui um marcador biológico único, o que torna o diagnóstico essencialmente clínico, baseado no histórico do paciente e em exames físicos detalhados. A falta de conhecimento sobre a condição faz com que muitos pacientes, como Jéssica, busquem alívio em analgésicos potentes, o que pode desencadear um efeito colateral grave: a cefaleia crônica diária por uso excessivo de medicação. Especialistas apontam que pacientes chegam a consumir mais de dez comprimidos por dia na tentativa de silenciar uma dor cuja origem é mecânica e articular.
A prevalência do problema é significativa. Uma meta-análise que reuniu 11 estudos e mais de 6 mil participantes estimou que cerca de 33,6% da população brasileira apresenta algum grau de DTM. Além disso, existe uma correlação clínica estabelecida entre a disfunção e a enxaqueca. Segundo uma revisão publicada em 2026 pela Unesp de Araraquara, indivíduos com enxaqueca possuem seis vezes mais chances de desenvolver DTM, enquanto o inverso também é verdadeiro, reforçando a necessidade de uma visão interdisciplinar no tratamento da dor crônica.
Tratamentos conservadores versus intervenções invasivas
Um dos pontos de maior alerta entre os especialistas é a realização de cirurgias buco-maxilo-faciais desnecessárias. Como muitos planos de saúde não oferecem cobertura ampla para o tratamento odontológico especializado em dor orofacial, mas cobrem procedimentos cirúrgicos, pacientes acabam sendo encaminhados para mesas de operação sem esgotar as alternativas conservadoras. Segundo Simone Carrara, cofundadora da Sociedade Brasileira de Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial (SBDOF), até 90% dos casos podem ser resolvidos com abordagens não invasivas.
O protocolo de tratamento, que deve ser conduzido por um dentista especializado, pode incluir o uso de placas interoclusais personalizadas, fisioterapia, laserterapia, ultrassom e orientações sobre hábitos cotidianos. Embora a DTM não tenha cura definitiva, o controle dos sintomas permite que o paciente retome sua rotina. No caso de Jéssica, a melhora significativa ocorreu nos três primeiros meses de tratamento, permitindo que ela abandonasse os medicamentos controlados e retornasse ao trabalho após três meses de afastamento.
Sinais de alerta e a importância da investigação
A DTM manifesta-se através de uma gama variada de sintomas que frequentemente são confundidos com problemas neurológicos ou otorrinolaringológicos. Entre os sinais mais comuns estão dores de cabeça recorrentes, sensação de pressão no fundo dos olhos, dores na nuca e ombros, zumbidos, vertigens e estalos ao abrir a boca. A condição pode estar associada a outros quadros de dor crônica, como a fibromialgia, e impactar severamente a saúde mental e a qualidade do sono.
Para o Canal 1 de Notícias, o caso de Jéssica serve como um lembrete sobre a importância da investigação multidisciplinar. A dor crônica não deve ser aceita como parte natural da rotina. A busca por especialistas capacitados em dor orofacial é o primeiro passo para interromper o ciclo de sofrimento e evitar tratamentos equivocados. Continue acompanhando nosso portal para mais reportagens aprofundadas sobre saúde, bem-estar e os avanços da medicina no Brasil.
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