Um conjunto de mensagens extraídas de dispositivos móveis de investigados expôs, segundo o Ministério Público de São Paulo (MPSP), os bastidores da aquisição da distribuidora de combustíveis Terrana. A operação, que está no centro da terceira fase da Operação Carbono Oculto, aponta para uma estrutura complexa montada por uma suposta organização criminosa liderada por Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como “Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”.
Os diálogos revelam que empresários, advogados e executivos financeiros articularam a criação de empresas e a engenharia financeira necessária para a compra. O material aponta que a gestão da distribuidora era, na prática, submetida a orientações de Mohamad, enquanto o empresário Paulo Narcélio Simões do Amaral figurava apenas como o comprador formal, estratégia utilizada para preservar a aparência de legalidade e passar por procedimentos de compliance.
Estrutura societária e o papel do comprador formal
A investigação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) identificou a criação do grupo de WhatsApp “Novo direção Terrana”, formado após a aquisição da empresa. O canal servia para coordenar decisões financeiras e administrativas. Em uma das conversas, o próprio Narcélio admite a necessidade de manter sua imagem como o comprador oficial, sugerindo que sua participação era um artifício para ocultar os reais controladores.
Para viabilizar a transação, foram constituídas as empresas Berna Holdings e Branson Holdings, ambas com capital social de apenas R$ 1 mil. Segundo os investigadores, essas companhias serviram como intermediárias para criar uma camada de proteção entre os recursos utilizados e os beneficiários finais. O escritório Garcia Peres Advogados teria auxiliado na montagem societária, enquanto documentos eram preparados para atestar uma capacidade financeira que, na prática, não condizia com a realidade das holdings.
A engenharia financeira e o financiamento da operação
O esquema envolveu o fundo Radford, administrado pelo Banco Genial, e a Usina Itajobi. A engenharia financeira consistia no aporte de recursos no fundo, que posteriormente concedia crédito às holdings de fachada para a compra de ativos da Terrana. O Ministério Público sustenta que o dinheiro que abasteceu o Radford tinha origem no próprio grupo investigado, utilizando uma sequência de contas para dissimular a procedência dos valores.
Relatórios financeiros apontam que, entre 24 e 26 de julho de 2024, R$ 100 milhões transitaram por diversas empresas, como a Aster Petróleo, antes de chegarem à Usina Itajobi. O juiz responsável pelo caso destacou que algumas dessas transferências ocorreram em intervalos de poucos minutos, reforçando a suspeita de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio.
Repercussão e o temor de exposição pública
À medida que reportagens começaram a associar a aquisição da Terrana a Mohamad Hussein Mourad e ao Primeiro Comando da Capital (PCC), o clima entre os envolvidos tornou-se tenso. Em uma das mensagens, Narcélio relata a Humberto Tupinambá, então sócio do Banco Genial, que “o primo está mais nervoso que eu”. A preocupação com a fiscalização da Secretaria da Fazenda de São Paulo (Sefaz-SP) também era constante, levando os envolvidos a discutirem como justificar movimentações financeiras suspeitas.
O Banco Genial, em nota, esclareceu que Humberto Tupinambá foi destituído de suas funções em maio de 2026. A instituição afirmou que colabora com as autoridades, forneceu todos os documentos solicitados ao Gaeco e adotou medidas internas de governança e controle após tomar conhecimento dos fatos. O banco ressaltou que renunciou à administração do Fundo Radford após a deflagração da operação.
O caso segue sob investigação, revelando como estruturas do mercado financeiro podem ser instrumentalizadas por organizações criminosas. Para acompanhar os desdobramentos desta e de outras apurações exclusivas, continue conectado ao Canal 1 de Notícias, seu portal de referência para um jornalismo pautado pela transparência e pelo compromisso com a verdade.