A morte prematura de Serena, uma recém-nascida que sofreu um corte na cabeça durante uma cesárea de emergência no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (SP), desencadeou uma série de investigações. O caso, que comoveu a comunidade, é agora alvo de apuração tanto pela Polícia Civil quanto por uma rigorosa sindicância interna da instituição hospitalar, buscando esclarecer as circunstâncias do trágico desfecho.
O falecimento da bebê, confirmado na quinta-feira, 20 de agosto, dois dias após o parto, mergulhou a família em profunda tristeza e incredulidade. A mãe, uma jovem de 20 anos residente em Serrana (SP), questiona as informações recebidas e a forma como o incidente foi tratado pela equipe médica.
As Circunstâncias do Parto e as Complicações Fetais
O parto de Serena ocorreu em 18 de agosto, no Hospital das Clínicas da USP de Ribeirão Preto, uma unidade de referência conhecida por procedimentos de alta complexidade no interior paulista. A mãe, que vinha sendo acompanhada há três semanas devido a restrições de crescimento da bebê e problemas na placenta, precisou ser internada novamente após apresentar um quadro de desaceleração dos batimentos cardíacos da criança – condição conhecida como bradicardia fetal.
Diante da gravidade da situação, a equipe médica indicou um parto de emergência com apenas 27 semanas de gestação. Serena nasceu prematura extrema, pesando apenas 433 gramas, e foi imediatamente encaminhada à Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal, onde lutou pela vida por dois dias.
O Ferimento Crítico e a Luta pela Sobrevivência
De acordo com relatos da família à Polícia Civil, a recém-nascida teve a cabeça atingida pela lâmina de um bisturi durante o procedimento cirúrgico. O prontuário médico e a ficha de encaminhamento ao Instituto Médico Legal (IML) confirmam um trauma cranioencefálico, descrevendo um ferimento de sete centímetros na cabeça.
O corte provocou significativa perda de sangue e vazamento de líquor, o fluido que protege o cérebro. Serena foi submetida a transfusões de sangue e a uma craniotomia para drenagem de um hematoma, em uma tentativa desesperada de salvar sua vida, mas infelizmente não resistiu à gravidade das lesões e à sua condição de prematuridade extrema, vindo a óbito na manhã de quinta-feira.
O Grito da Família: Alegações de Omissão e Falta de Transparência
A mãe de Serena expressa uma dor inconsolável e um sentimento de que o corte foi o fator determinante para a morte de sua filha. Ela relata que, após o ocorrido, os profissionais de saúde teriam minimizado a gravidade da situação, afirmando que incidentes como esse já haviam acontecido e que a bebê ficaria bem. A jovem lamenta: "Espero que isso não se repita com outras crianças, porque foi muito sofrido, eu acho que se não fosse esse machucado, a minha filha estaria viva agora, estaria comigo".
Além da angústia pelo ocorrido, a família levanta acusações de omissão e recusa na entrega de documentos por parte da equipe hospitalar. A mãe afirma que uma médica prometeu cópias de relatórios da pediatria e imagens da lesão, mas posteriormente alegou que as normas impediam a impressão direta, orientando a família a formalizar um pedido administrativo. Ela também relatou não ter visto docentes responsáveis durante a cirurgia, apenas médicos residentes, o que intensifica a busca por respostas e transparência.
As Investigações em Curso e a Posição do Hospital
Em nota oficial, o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto lamentou o ocorrido e manifestou solidariedade à família. A instituição confirmou ter conhecimento do caso e informou a instauração de uma apuração interna para "esclarecer todas as circunstâncias do atendimento prestado". Contudo, o hospital optou por não comentar as declarações da mãe sobre suposta ocultação de informações ou a presença de residentes durante o parto.
Paralelamente à investigação interna, o caso foi registrado pela família na Central de Polícia Judiciária de Ribeirão Preto e encaminhado ao 3º Distrito Policial. Inicialmente, a ocorrência é tratada como "morte suspeita" e "morte acidental". O corpo de Serena foi submetido a análise no Instituto Médico Legal (IML), cujo laudo necroscópico será fundamental para embasar as investigações e determinar a causa oficial da morte.
A Busca por Justiça e Prevenção
O sepultamento de Serena, ocorrido na sexta-feira, 21 de agosto, simboliza não apenas o fim de uma curta vida, mas o início de uma batalha por justiça e clareza. A família, ao levar o caso às autoridades e à imprensa, busca garantir que a verdade venha à tona e que medidas sejam tomadas para que nenhuma outra família passe por uma tragédia semelhante. A investigação em andamento no Hospital das Clínicas e na Polícia Civil é crucial para elucidar as responsabilidades e fortalecer a segurança dos procedimentos obstétricos, reafirmando o compromisso com a vida e a dignidade humana desde o nascimento.
Fonte: https://g1.globo.com