O Brasil registrou a menor taxa de homicídios dos últimos 14 anos em 2025, um dado que, à primeira vista, sugere um avanço significativo na segurança pública nacional. Contudo, uma análise mais aprofundada dos números revelados pela 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública expõe uma realidade alarmante e contrastante: enquanto a violência geral recua, a criminalidade direcionada a grupos específicos da população atinge patamares preocupantes, evidenciando uma profunda desigualdade na forma como a insegurança afeta diferentes segmentos da sociedade.
Aspectos como raça, gênero, orientação sexual e idade não apenas aumentam a exposição a crimes violentos, mas também intensificam a vulnerabilidade de milhões de brasileiros. Esta edição do anuário desenha um cenário de paradoxo, onde a celebração pela queda de homicídios é ofuscada pelo crescimento brutal da violência contra negros, mulheres, a população LGBT+ e crianças, sublinhando a necessidade urgente de políticas públicas mais inclusivas e focadas na proteção dos mais vulneráveis.
A Desigualdade Racial na Violência Letal
Apesar da redução global nos índices de homicídios, a cor da pele permanece um fator determinante na vitimização por crimes letais no Brasil. Os dados são contundentes: pessoas negras representam 80% das vítimas de homicídio no país. Essa estatística alarmante não apenas expõe uma profunda desigualdade racial no acesso à segurança, mas também aponta para questões estruturais que persistem na sociedade brasileira, onde a população negra é desproporcionalmente afetada pela violência.
Recorde de Feminicídios e a Escalada da Violência de Gênero
A violência contra a mulher atingiu um novo patamar de gravidade em 2025, com o registro de feminicídios batendo recorde histórico. Em média, quatro mulheres foram assassinadas diariamente no Brasil por razões de gênero, um aumento que caminha na contramão da tendência de queda geral nos homicídios. A situação é particularmente crítica em algumas regiões, como o Amapá, que registrou um salto chocante de 347% nos casos de feminicídio em apenas um ano, revelando a urgência de estratégias de combate específicas e eficazes para esse tipo de crime.
Além dos feminicídios, o estado de Santa Catarina destaca-se como líder nacional em registros de ameaças contra mulheres e crimes de racismo, indicando um ambiente de maior vulnerabilidade e exposição à violência simbólica e física para as mulheres na região. Esses dados reforçam a necessidade de abordar a violência de gênero de forma multidimensional, considerando não apenas os crimes letais, mas também as formas de assédio e ameaça que precedem e compõem o ciclo da violência.
Crescimento da Agressão Contra a População LGBT+
A intolerância e a violência contra a população LGBT+ também registraram um aumento significativo, com um crescimento superior a 35% de um ano para o outro. Este número, por si só alarmante, é considerado apenas uma parte do problema, uma vez que os crimes motivados por preconceito e discriminação sexual e de gênero são historicamente subnotificados no Brasil. A invisibilidade dessas ocorrências dificulta a mensuração precisa da dimensão do desafio e a formulação de políticas públicas adequadas, deixando essa parcela da população ainda mais desprotegida.
Crianças e Adolescentes: Vítimas Silenciosas da Violência
O Anuário de Segurança Pública também lança luz sobre a gravidade da violência que atinge crianças e adolescentes. A cada dez vítimas de estupro no Brasil, seis tinham menos de 14 anos, um dado que sublinha a extrema vulnerabilidade de indivíduos em desenvolvimento. Além dos abusos sexuais, os registros de bullying e cyberbullying entre jovens tiveram um acréscimo de quase 70% em um ano, demonstrando a expansão da violência para o ambiente digital e a urgência de medidas de proteção e conscientização para as novas gerações.
O Panorama Geral da Segurança e os Desafios Futuros
Embora o número geral de assassinatos tenha alcançado o menor nível em 14 anos, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, que analisa os dados de 2025, revela que a calma nos indicadores macro esconde uma realidade de violência localizada e direcionada. A persistência de altos índices de violência contra grupos específicos – negros, mulheres, LGBT+ e crianças – exige uma reavaliação das estratégias de segurança pública, que precisam ser mais interseccionais e contemplar as particularidades de cada grupo vulnerável. A elaboração de políticas eficazes dependerá da capacidade de transformar a lupa nos números em ações concretas que garantam a segurança e a dignidade de todos os brasileiros, sem exceção.
Fonte: https://g1.globo.com