William Correia da Silva Junior, figura central nas discussões sobre segurança pública informal no Rio de Janeiro, enfrenta agora um grave desdobramento jurídico em outra frente. Apontado pelo Ministério Público como o mentor e líder de um grupo autointitulado de vigilantes na Zona Sul carioca, Correia tornou-se réu em um processo criminal no estado de São Paulo. A acusação, formalizada pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), refere-se ao crime de assédio sexual contra uma atleta paralímpica, ocorrido durante um evento esportivo em 2021.
O caso traz à tona uma faceta diferente do homem que ganhou notoriedade por organizar as chamadas “rondas comunitárias” em bairros como Copacabana e Ipanema. Enquanto no Rio ele é investigado por promover perseguições e violência contra adolescentes suspeitos de furtos, o processo em solo paulista detalha uma conduta de abuso de poder e importunação contra uma jovem que, na época dos fatos, tinha apenas 16 anos. O acusado, então com 34 anos, ocupava uma posição de suporte na delegação fluminense.
Acusações de conduta imprópria em competição esportiva
De acordo com a denúncia aceita pela Justiça paulista, o crime teria ocorrido durante uma competição interestadual em que William Correia atuava como parte da equipe de apoio da delegação do Rio de Janeiro. O Ministério Público detalha que o acusado teria proferido comentários de cunho sexual inadequados direcionados à adolescente e utilizado redes sociais para enviar mensagens persistentes, inclusive convidando a jovem para entrar em seu quarto de hotel.
A investigação aponta ainda um episódio mais invasivo, no qual Correia teria entrado no quarto onde a vítima estava acompanhada de outra colega, também menor de idade. Inicialmente, o caso foi registrado em uma Delegacia de Atendimento à Mulher (DEAM) no Rio de Janeiro. Contudo, como o fato ocorreu na capital paulista, a competência jurídica foi transferida para São Paulo, onde a Polícia Civil indiciou o réu por assédio sexual de forma continuada.
Andamento processual e os argumentos da defesa técnica
O processo avançou significativamente em 2026, com a aceitação formal da denúncia em maio. William Correia prestou depoimento recentemente, no dia 22 de outubro, após uma ausência anterior justificada por motivos de saúde. O caso agora segue para a fase de sentença, sob a responsabilidade de uma juíza de uma vara criminal de São Paulo, tramitando sob segredo de Justiça para preservar a identidade da vítima.
A defesa de William Correia busca a absolvição sumária, alegando que a denúncia do Ministério Público é “inepta” e baseada em imputações genéricas. Os advogados argumentam que não houve demonstração de constrangimento, ameaça ou dolo específico para obtenção de vantagem sexual. Segundo a tese defensiva, não existiriam provas de chantagem ou comportamento que comprometesse a liberdade da jovem. Procurada para comentar o estágio atual do processo, a defesa afirmou que se manifestará apenas após a publicação da sentença.
O papel de liderança na milícia comunitária de Copacabana
Paralelamente ao processo por assédio, William Correia permanece sob o radar das autoridades fluminenses por sua atuação à frente do grupo Anjos da Guarda Vigilância Comunitária (AGVC). O Ministério Público do Rio de Janeiro o identifica como o fundador e principal articulador do coletivo, que utiliza aplicativos de mensagens e redes sociais para organizar o que chamam de “caçadas” a suspeitos de crimes na Zona Sul.
As investigações no Rio detalham um cenário de violência organizada. O grupo é acusado de incentivar o uso de roupas pretas, máscaras e armas improvisadas, como soco-inglês e pedaços de pau, para realizar rondas informais. A promotoria cita vídeos de espancamentos e a exposição sistemática de imagens de adolescentes em redes sociais, práticas que inflamam o debate sobre o limite entre a vigilância comunitária e a formação de grupos de extermínio ou milícias urbanas.
Histórico de exoneração e vínculos com entidades de apoio
Um ponto que chama a atenção das autoridades é a permanência de Correia em eventos oficiais mesmo após sua saída do serviço público. Ele foi exonerado de um cargo na Secretaria Estadual de Esporte, Lazer e Juventude do Rio de Janeiro (SEEL/RJ) em 2020. No entanto, sua participação na viagem a São Paulo em 2021, onde teria ocorrido o assédio, foi viabilizada por um termo de colaboração entre o governo e a Associação Niteroiense dos Deficientes Físicos (ANDEF).
Documentos entregues pela associação à Justiça confirmam que ele constava na lista oficial como integrante do “staff” do evento. Essa proximidade com estruturas oficiais, mesmo sem vínculo direto, é um dos elementos que a acusação utiliza para contextualizar a vulnerabilidade da vítima perante alguém que exercia uma função de autoridade e cuidado durante a competição escolar.
O desfecho do caso em São Paulo poderá ter impactos diretos na percepção pública e jurídica sobre a conduta de William Correia no Rio de Janeiro. Enquanto a sentença não é proferida, o debate sobre a segurança pública e a ética no esporte permanece em evidência. Continue acompanhando o Canal 1 de Notícias para atualizações sobre este caso e outras reportagens aprofundadas sobre justiça e segurança no Brasil, com o compromisso de levar até você a informação apurada com rigor e imparcialidade.