Com a morte de Benito de Paula no último domingo (18), o estilo conhecido como samba-joia, revelado pelo cantor nos anos 1970, voltou a ocupar o centro das discussões sobre a música popular brasileira. A vertente musical marcou uma época de grande apelo comercial, mas também de intensos debates críticos nos bastidores da cultura nacional.
O termo era utilizado frequentemente de maneira pejorativa por críticos e jornalistas da época para diferenciar o samba com letras românticas e arranjos comerciais do formato tradicional e da MPB. Responsável por inovações marcantes, como a introdução do piano no samba, o cantor — que morreu aos 84 anos — consolidou-se como a maior referência do gênero, abrindo caminho para outros nomes de sucesso.
A ascensão comercial do estilo
A novidade encontrou espaço e conquistou o público em meio ao domínio da bossa nova e da tropicália no país. As composições focadas no amor e em temáticas cotidianas interpretadas por nomes como Benito de Paula e Martinho da Vila chegaram a superar as vendas de discos de Roberto Carlos, 85, durante vários meses consecutivos no período.
O lançamento da faixa “Retalhos de Cetim” (1973) impulsionou o sucesso da carreira de Benito e levou o samba-joia ao seu ápice comercial entre as décadas de 1970 e 1980. Outro grande expoente do movimento, Agepê, marcou a história fonográfica ao se tornar o primeiro artista do segmento a ultrapassar a marca de 1 milhão de cópias vendidas com o LP “Mistura Brasileira” (1984).
Repercussão e resistência aos rótulos
Com uma trajetória estimada em cerca de 50 milhões de cópias comercializadas no Brasil, Benito de Paula acumulou recordes e demonstrou indiferença pública em relação às críticas direcionadas ao seu som. A resposta às divergências com a crítica especializada aparecia frequentemente em versos assertivos, como na letra de “Osso Duro de Roer”, onde rebatia os julgamentos e celebrava a própria identidade musical.
A vertente também abrigou outros grandes vendedores de discos que moldaram o mercado fonográfico nacional da época, a exemplo de Luiz Ayrão, 84, Luiz Américo, 82, Agepê (1942-1995), Wando (1945-2012) e Gilson de Souza (1944-2022), cujas obras embalaram rádios e residências em todo o território brasileiro.
O declínio e o legado na música nacional
O ciclo de forte apogeu do samba-joia sofreu uma transição com o surgimento do movimento do Cacique de Ramos, que revelou nomes fundamentais como Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Fundo de Quintal e Almir Guineto, reposicionando o partido alto no topo das paradas de sucesso.
Apesar da mudança de cenário nas rádios, o legado do estilo permaneceu vivo. O samba-joia serviu de matriz direta para o surgimento do pagode romântico na década de 1990, influenciando grupos de enorme expressão popular como Raça Negra, Só Pra Contrariar e Katinguelê, que mantiveram viva a centralidade do romantismo na música popular brasileira.
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