A água mudou, os peixes também mudaram e a vida de quem sempre dependeu do Rio Doce e do mar nunca mais foi a mesma desde o rompimento da barragem em Mariana, em Minas Gerais. A tragédia completou 11 anos e representa uma data nada comemorativa para quem ainda convive diariamente com as consequências do maior desastre ambiental do país.
Os rejeitos que atingiram a bacia do Rio Doce e alcançaram o litoral do Espírito Santo transformaram profundamente a relação de pescadores tradicionais e comunidades indígenas com as águas. Entre dúvidas sobre a segurança alimentar e a saudade de uma rotina perdida, moradores locais tentam reconstruir suas histórias em meio a um ecossistema ainda marcado por incertezas e alterações ambientais.
Insegurança e saudade na rotina de Regência
Em Regência, distrito de Linhares, no Norte do estado, o presidente da Associação de Pescadores, Leônidas Carlos, passou 55 anos da vida no mar. Foi da pesca que ele tirou o sustento necessário para criar os nove filhos, incluindo um engenheiro de petróleo e gás. Hoje, o sentimento predominante é a saudade do trabalho que marcou sua história.
No entanto, a falta de segurança impede que ele retorne à antiga rotina ou comercialize os peixes da região. “Minha saudade é imensa. Isso foi o maior crime ambiental, acabou com minha vida”, lamentou, destacando o temor de colocar em risco a saúde de quem pudesse comprar o pescado. A situação também obrigou moradores como José Sabino, de 62 anos, a buscarem novas alternativas de renda, como o trabalho em uma fazenda de cacau, devido aos impactos emocionais e profissionais da paralisação.
Impactos culturais e espirituais na aldeia Piraquê-Açu
Na aldeia Piraquê-Açu, na cidade vizinha de Aracruz, o impacto vai muito além da perda financeira ou da atividade profissional. O cacique Kara’í Perú relatou que está há mais de dez anos sem pescar no rio, após a passagem dos rejeitos de mineração. O rio sempre representou fonte de alimentação, base da cultura, espaço de convivência e conexão espiritual com a natureza para os indígenas.
Diante da desconfiança sobre a qualidade da água, as famílias abandonaram velhos hábitos e passaram a comprar pescado de outras regiões, fornecido por terceiros. Para demonstrar a ligação contínua com a natureza, o cacique e sua mãe, a pajé Keretxu Emdey, realizaram orações nas margens do Piraquê-Açu, entoando cânticos em guarani para pedir proteção aos rios, mares e peixes, unindo a luta ambiental a uma dimensão coletiva e sagrada.
Monitoramento científico aponta desafios no ecossistema aquático
Mesmo 11 anos após o rompimento da barragem, pesquisas conduzidas pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) identificam contínuas alterações no ecossistema aquático da bacia. O centro de monitoramento acadêmico e órgãos ambientais relatam a aparição de peixes com anomalias, deformidades e tumores, encaminhados por pescadores para avaliações técnicas.
O coordenador nacional do Centro Tamar, Joca Thomé, explicou que os índices de metais pesados foram mais elevados nos primeiros anos, mas continuam apresentando oscilações associadas a períodos de chuvas intensas e enchentes, que acabam ressuspendendo os sedimentos acumulados no leito. Limitações na conservação imediata dos animais, contudo, dificultam o diagnóstico preciso sobre as causas exatas de mortes e alterações na fauna.
Retomada da pesca e indefinições sobre a saúde humana
A recente portaria conjunta dos ministérios da Pesca e Aquicultura e do Meio Ambiente restabeleceu as regras para a atividade profissional em um trecho do litoral próximo à foz do Rio Doce. Contudo, a liberação oficial não eliminou o receio das comunidades. Enquanto a Ufes conduz estudos focados na biodiversidade, análises da Agência Nacional de Vigilância Sanitária identificaram concentrações de cádmio acima do limite permitido em amostras de água doce, desaconselhando o consumo desses exemplares específicos.
Em resposta aos questionamentos, a Samarco informou que o Novo Acordo do Rio Doce prevê o acompanhamento contínuo da qualidade da água e da fauna, destacando o repasse de centenas de milhões de reais para instituições de pesquisa. A Vale reafirmou seu compromisso com a reparação integral dos danos, enquanto pescadores e indígenas seguem cobrando respostas definitivas para garantir a segurança de suas famílias e o futuro das próximas gerações.
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