A Praça Roosevelt, no coração de São Paulo, transformou-se em um vibrante palco de resistência e memória neste sábado, 25 de julho de 2026. Centenas de vozes uniram-se na 11ª Marcha das Mulheres Negras da capital paulista, em um ato poderoso que lembrou os dez anos da morte brutal de Luana Barbosa. O evento, que reuniu um mosaico de ativistas, líderes políticos, feministas, religiosos, artistas e representantes de movimentos da comunidade negra, transcendeu a mera homenagem, consolidando-se como um grito coletivo por justiça, reparação e pelo bem viver de todas as mulheres negras.
Uma Década de Impunidade: A Luta por Justiça para Luana Barbosa e Além
Dez anos se passaram desde que Luana Barbosa, mulher lésbica, negra e periférica, foi covardemente abordada e agredida por policiais militares na rua de sua casa, em abril de 2016. Sua morte permanece um símbolo doloroso da violência sistêmica, com nenhum envolvido preso ou condenado até hoje. A impunidade no caso de Luana ressoa a realidade de incontáveis outras mulheres negras, como pontuou Juliana Gonçalves, cofundadora do evento. "Dez anos se passaram e muitas Luanas Barbosas seguem morrendo, como a gente viu o caso da Ieda e da Fabiana, duas mulheres negras e lésbicas que foram mortas em São Paulo", afirmou, destacando a negligência que recai sobre a população negra.
O lema da marcha – “Há 10 anos por Luana Barbosa e por todas nós! Por direitos, reparação e Bem Viver! Mulheres negras nas ruas e nas urnas!” – encapsula as reivindicações do movimento. A pauta vai além da justiça individual, exigindo reparação do Estado brasileiro. Gonçalves ressalta que "as mulheres negras levantam essa economia, fazem o trabalho de cuidado que não é reconhecido e mesmo assim são as que menos ganham", evidenciando a dívida histórica e social para com essa parcela da população.
Manifestações Artísticas: Ancestralidade e Vozes de Protesto
A Marcha não foi apenas um espaço de reivindicação política, mas também de rica expressão cultural, onde a arte serviu como potente veículo de memória e resistência. A abertura oficial do evento foi marcada pela performance impactante do coletivo Bando das Macuas. Francine Moura, uma das sete mulheres que compõem o grupo, explicou que seu trabalho foca no corpo e se inspira no povo Macuas, originário do norte de Moçambique.
A apresentação na Praça Roosevelt foi um desdobramento do espetáculo ‘Anunciação’, encenado entre 2024 e 2025, reverenciando figuras ancestrais e as mulheres que se uniram na marcha. Complementando a atmosfera de engajamento, duas DJs revezaram-se nas pick-ups, embalando a multidão com seleções de rap e hip hop, cujas letras reverberavam temáticas de protesto e denúncia social, amplificando as mensagens levadas às ruas.
A Força da Fé e o Clamor por Laicidade e Respeito
A diversidade da Marcha foi evidenciada pela forte presença de mulheres negras de diferentes credos, unidas na luta por direitos e reconhecimento. Lideranças de religiões de matriz africana, como a Ìyalóde Marisa de Oya, participaram ativamente, destacando a contribuição histórica do povo negro na construção do Brasil e a contínua invisibilidade e violência que enfrentam.
Marisa de Oya enfatizou a realidade de um povo "largado, sofrendo violência, apanhando, que não tem um lugar de fala dentro do governo". Ela denunciou a violência motivada pela cor da pele e pela fé, questionando a declarada laicidade do país. "Tem muita gente apanhando por causa da cor da pele, porque é de candomblé, porque é de umbanda. Então, você vê que esse país não é assim tão laico como se fala que é", afirmou. Ao lado delas, lideranças da Rede de Mulheres Negras Evangélicas, grupo ativo desde 2018, também marcaram presença, solidificando o amplo espectro de apoio e engajamento da marcha.
Um Grito Nacional por Dignidade e Transformação
A 11ª Marcha das Mulheres Negras de São Paulo, ao honrar a memória de Luana Barbosa e dar voz a demandas coletivas, reverberou para além das fronteiras da capital paulista. Manifestações similares ocorreram em outras importantes cidades brasileiras, como Salvador (BA), que sediou uma caminhada neste mesmo sábado, e Recife (PE), que realizou um encontro na sexta-feira anterior. Essa mobilização nacional reforça a urgência e a amplitude das pautas das mulheres negras, que, ao tomarem as ruas, reafirmam sua presença, sua força e seu inabalável compromisso com um futuro de direitos plenos, reparação e bem viver para todas.