O retorno da líder da oposição venezuelana, Maria Corina Machado, à Venezuela desafia o plano de transição elaborado pelo Departamento de Estado dos EUA, coloca pressão sobre os ombros da presidente interina do país, Delcy Rodríguez, e aumenta as tensões na ala do chavismo que a apoia — ala que, até o domingo (25), parecia sobreviver, sem maiores sobressaltos, aos desdobramentos da derrubada de Nicolás Maduro.
A presença da líder opositora em solo venezuelano altera a relativa tranquilidade com que vinha transcorrendo o que muitos passaram a chamar de “novo momento político” do país sul-americano, após a operação militar de 3 de janeiro que capturou o ditador Nicolás Maduro. Em troca da manutenção no poder, o chavismo — apoiado por Washington — reformou algumas leis, libertou dezenas de presos políticos, permitiu o retorno de alguns exilados e concedeu a uma empresa, associada ao Pentágono, acesso privilegiado às enormes reservas de petróleo da Venezuela.
A aparição inesperada de Machado na igreja Santa Rosa de Barquisimeto, no centro-oeste da Venezuela, também colocará à prova esse vínculo, que parece ser muito mais sólido do que a ligação que a líder opositora mantém atualmente com a administração de Donald Trump. “A relação com Washington está abalada, mas não interrompida. Estamos cientes de que os Estados Unidos são nosso principal aliado estratégico”, disse à CNN uma fonte próxima ao seu círculo.
Choque de interesses políticos
No entanto, o interesse de Washington em desenhar um marco institucional para a Venezuela — livre dos sobressaltos que a presença de Machado e sua demanda por mudança provocam no chavismo — já colidia com a necessidade dela de se estabelecer no país para recuperar a iniciativa política, que começava a se esvair após um período de pouco mais de dois anos que combinou a clandestinidade com o exílio.
Essa contraposição entre os interesses de Washington e de Machado ficou ainda mais evidente após os terremotos de 24 de junho. Depois dessa data, Machado decidiu intensificar a pressão para retornar à Venezuela — algo que os Estados Unidos haviam desaconselhado por motivos de segurança. Ela tentou voltar várias vezes, sem sucesso, a partir do Panamá, onde passou as últimas semanas. Nunca conseguiu concretizar o retorno “devido ao bloqueio do regime”, segundo denunciou Pedro Urruchurtu, diretor de relações internacionais do partido Vente Venezuela, em um comunicado divulgado no domingo (25).
Repercussão internacional e autonomia
Ela finalmente conseguiu, quatro meses após a tragédia, sem contar com o aval expresso de Washington. “Consideramos que não era o momento de consultar, mas sim de agir. Preferimos atuar com autonomia para não incomodar ninguém”, disse à CNN uma fonte próxima à dirigente. “E, pelo visto, os Estados Unidos não se opuseram. Supomos que eles já deviam saber, pois ficam sabendo de tudo”, acrescentou ele.
A notícia de seu retorno parece ter surpreendido as altas autoridades norte-americanas. Enquanto o presidente Trump afirmou à CNN que não estava a par do retorno de Machado — embora tenha expressado o desejo de que ela estivesse bem —, o Departamento de Estado remeteu às declarações feitas pelo secretário de Estado, Marco Rubio, por ocasião dos contratempos para o retorno que foram denunciados pela equipe da líder opositora.
Cenário econômico e social
A equipe de Machado está ciente de que ela retorna a um país diferente. Não houve grandes mudanças na economia local, ainda sobrecarregada pela perda de três quartos do PIB e que agora busca se recuperar dos efeitos do duplo terremoto. São mais de dois anos sem contato direto com seus apoiadores. “Ela precisa voltar a sentir o pulso das ruas e ver quais são os próximos passos, pensá-los muito bem para não cometer erros. Ela entende isso”, disse a fonte próxima ao seu círculo.
A equipe do Vente Venezuela vem preparando o terreno para a chegada de sua líder. Vários de seus principais quadros — incluindo dois dos dirigentes que permaneceram confinados na sede da embaixada da Argentina em Caracas por mais de um ano — retornaram à Venezuela para participar de concentrações e eventos com a militância, que começa, aos poucos, a retomar suas atividades após a dura repressão ocorrida na sequência dos polêmicos resultados das eleições presidenciais de 28 de julho de 2024.
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