A rotina de trabalho em canteiros de obras e centros comerciais no Paraná tem ganhado um novo elemento: a sala de aula. Iniciativas corporativas locais permitem que funcionários concluam a educação básica diretamente durante o expediente, conciliando a jornada profissional com a retomada dos estudos formais. O modelo busca contornar barreiras históricas que afastam milhões de brasileiros da escola, como a falta de tempo e o desgaste físico decorrente de jornadas exaustivas.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que mais de 73 milhões de pessoas com 18 anos ou mais ainda não concluíram a educação básica no país. Esse contingente enfrenta dificuldades cotidianas de empregabilidade e ascensão social, muitas vezes agravadas pela impossibilidade de frequentar aulas no período noturno devido a responsabilidades familiares e profissionais.
Aulas no expediente e inclusão de trabalhadores
Na construção civil e no setor de comércio, o formato flexível tem transformado a realidade de colaboradores de diferentes perfis. Em Curitiba, funcionários dedicam parte de suas horas de trabalho semanais a atividades que vão desde a alfabetização até a preparação para exames de certificação de competências. A estrutura de ensino é montada nos próprios locais de atuação, utilizando salas de treinamento ou refeitórios adaptados com lousas e projetores.
O suporte pedagógico personalizado é apontado como um fator essencial para manter o engajamento dos alunos. Como muitos estão há anos longe dos livros, as instituições e empresas aplicam avaliações periódicas para monitorar a evolução individual e adaptar o conteúdo às necessidades específicas de cada turma, reduzindo a evasão escolar e o receio inicial do retorno ao ambiente acadêmico.
Impacto na produtividade e integração de estrangeiros
Além da realização pessoal dos estudantes, os reflexos dos projetos educacionais alcançam indicadores corporativos e a dinâmica interna das equipes. Levantamentos internos de companhias que adotam o modelo indicam que a grande maioria dos participantes relata aumento na produtividade e expressa o desejo de permanecer por mais tempo na empresa, fortalecendo o vínculo com o ambiente de trabalho.
A iniciativa também cumpre um papel de acolhimento social, especialmente para trabalhadores imigrantes. Em shoppings da capital paranaense, o aprendizado da língua portuguesa e a adaptação cultural ajudam estrangeiros a revalidar conhecimentos obtidos em seus países de origem, facilitando a comunicação diária e a integração com os demais colegas de equipe.
Desafios na rede pública e o cenário da EJA
Enquanto programas corporativos avançam em empresas específicas, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) ofertada pela rede pública enfrenta um movimento de forte retração. No Paraná, o número de matrículas na modalidade registrou queda expressiva ao longo dos últimos anos, acompanhando uma tendência de declínio observada em todo o território nacional e associada a fatores como o fechamento de turmas e a inadequação dos currículos.
Especialistas em políticas educacionais apontam que a EJA precisa se reinventar para atrair o público adulto, sugerindo maior articulação entre a conclusão dos estudos e a formação profissional técnica. A expectativa é que novas diretrizes previstas em planos educacionais ajudem a ampliar a alfabetização e a garantir o direito constitucional ao aprendizado para todas as faixas etárias.
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