A transformação da dor em denúncia pública
Para a artista plástica e empresária Luiza Pannunzio, o luto pela morte do irmão, Francisco, ocorrida em março de 2026, transcendeu o âmbito privado da saudade. Residente em Sorocaba, no interior de São Paulo, ela encontrou nas redes sociais uma ferramenta de ativismo, utilizando sua própria dor para questionar as lacunas no atendimento a pacientes com transtornos mentais e o desamparo enfrentado por suas famílias.
A trajetória de Francisco, que conviveu com um diagnóstico de esquizofrenia, tornou-se o fio condutor de uma série de relatos que misturam afeto e indignação. Em uma de suas publicações, Luiza sintetiza a impotência que marcou o período de crise do irmão: “Ninguém salva ninguém sozinho. Ninguém. Mesmo sabendo disso, eu tentei”. A frase resume o sentimento de uma família que, segundo a artista, buscou auxílio em diversos órgãos, mas encontrou barreiras institucionais e falta de suporte em momentos críticos.
O desafio do cuidado e o desamparo institucional
Um dos episódios mais emblemáticos narrados por Luiza envolve a tentativa de socorro a Francisco enquanto ele caminhava por rodovias paulistas durante um surto. Segundo a família, o atendimento foi negado por concessionárias sob a justificativa de que o trecho não pertencia às suas respectivas áreas de atuação. Esse tipo de relato ilustra a complexidade da rede de proteção social, que muitas vezes falha ao lidar com a imprevisibilidade de quadros psiquiátricos graves.
A família relata que, após uma década de estabilidade alcançada com o acompanhamento do Caps (Centro de Atenção Psicossocial) e o uso de medicação injetável, o quadro se agravou quando Francisco decidiu interromper o tratamento. O desejo de autonomia e a busca por uma vida sem os estigmas da doença levaram a uma série de recaídas, culminando em uma internação compulsória no Hospital Geral de Sorocaba, em dezembro de 2025.
A busca por respostas após a fatalidade
A morte de Francisco, aos 48 anos, ocorreu pouco tempo após sua alta hospitalar. A família aponta que o esquema de tratamento, que passou a incluir a administração de clozapina, teria causado uma leucopenia severa — uma queda drástica nos glóbulos brancos — que, segundo Luiza, não foi identificada ou tratada a tempo, evoluindo para uma septicemia fatal. Para a artista, o luto tornou-se uma investigação constante por respostas.
“Eu estou trabalhando dobrado. Dia e noite, tentando restabelecer nossa família dentro da injustiça que foi te perder dessa maneira”, desabafa Luiza. Ela enfatiza que não falar sobre o caso seria deslegitimar a vida do irmão. A denúncia pública, portanto, atua como uma forma de manter a memória de Francisco viva e, ao mesmo tempo, pressionar por mudanças na assistência oferecida pelo SUS.
Fortalecimento da luta antimanicomial
O engajamento de Luiza Pannunzio não se limita ao caso de seu irmão. Atualmente, ela defende o fortalecimento das Redes de Atenção Psicossocial (Raps) e a ampliação da luta antimanicomial. A artista acredita que a visibilidade dada ao caso pode servir de alerta para que outras famílias não enfrentem o mesmo isolamento e falta de suporte técnico.
A professora de bioética da UnB, Aline Albuquerque, reforça que casos de eventos adversos em saúde geram um sofrimento adicional, pois a morte ocorre em um ambiente onde o paciente deveria estar seguro. A pesquisadora destaca que o impacto sobre os familiares é profundo, especialmente quando a sensação é de que o desfecho poderia ter sido evitado com um monitoramento mais rigoroso.
O Canal 1 de Notícias segue acompanhando os desdobramentos sobre as políticas públicas de saúde mental e o debate acerca da assistência aos pacientes em situação de vulnerabilidade. Continue conosco para mais informações sobre este e outros temas de relevância social.
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