O cenário eleitoral no interior de São Paulo voltou a evidenciar um fenômeno que desafia a lógica das legendas partidárias: o eleitor que separa suas escolhas para o Palácio do Planalto e para o Palácio dos Bandeirantes. Dados apurados nas 66 cidades das regiões de Ribeirão Preto e Franca revelam que, no primeiro turno das eleições de 2026, uma parcela significativa do eleitorado optou por caminhos distintos ao votar para presidente e para governador.
Levantamento realizado com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que pelo menos 71 mil eleitores que depositaram seu voto em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para a Presidência não escolheram Fernando Haddad (PT) para o governo estadual. O movimento de descolamento também foi registrado no campo oposto: o governador reeleito Tarcísio de Freitas (Republicanos) superou a votação de Flávio Bolsonaro (PL) na mesma região em 86.888 votos.
A primazia da figura pessoal sobre a ideologia partidária
Para especialistas em ciência política, o comportamento do eleitor brasileiro contemporâneo é pautado pela identificação com a figura do candidato, e não necessariamente por uma adesão estrita a programas partidários ou ideologias de esquerda e direita. O cientista político João Augusto do Carmo observa que o eleitor vota em identidades pessoais.
Segundo o pesquisador, a trajetória de Lula possui um peso específico que, muitas vezes, não é transferido automaticamente para seus aliados. “O Lula ajudou muito mais o Haddad nessa eleição do que o Haddad contribuiu para ampliar os votos ao presidente Lula”, avalia Do Carmo. O desgaste associado ao comando do Ministério da Fazenda, que lida diretamente com as expectativas do mercado e do setor produtivo, também é apontado como um fator que pode ter influenciado o desempenho de Haddad junto ao eleitorado do interior.
A influência das prefeituras e a dinâmica regional
A força política dos prefeitos municipais desempenha um papel crucial na consolidação dos votos para o governo estadual. Como as prefeituras dependem de repasses, convênios e investimentos diretos do governo do estado para viabilizar obras e serviços, existe uma pressão prática para que o chefe do Executivo municipal alinhe sua base ao governador vigente.
“É difícil um prefeito apoiar um candidato diferente do atual governador, porque ele sabe que pode perder recursos, apoio e força na aliança”, explica Do Carmo. Essa capilaridade, somada à presença física de serviços estaduais como escolas e unidades de saúde, cria uma rede de influência que transcende a polarização nacional. Em cidades menores, a ideia de pertencimento e a necessidade de manter o alinhamento com a gestão estadual pesam na decisão final do cidadão.
Perfil conservador e o histórico de descolamento
O fenômeno não é inédito. Em 2022, um cenário similar já havia sido observado na região, com uma diferença expressiva entre os votos destinados a Lula e a Haddad. O perfil do eleitorado do interior paulista, historicamente mais conservador e tradicional, tende a favorecer candidatos que se posicionam ao centro ou à direita, buscando estabilidade e evitando o distanciamento das normas sociais locais.
A análise dos dados por município mostra disparidades acentuadas. Em Jeriquara, por exemplo, a diferença entre os votos para presidente e governador ultrapassou os 30%. Em contrapartida, o alto índice de votos brancos e nulos para o cargo de governador — que somaram 12,2% na região, contra 5,4% para presidente — sugere que parte do eleitorado, embora decidida sobre o comando do país, não encontrou representação ou preferiu não se posicionar na disputa estadual.
Continue acompanhando o Canal 1 de Notícias para análises aprofundadas sobre o cenário político nacional e regional. Nosso compromisso é levar até você informações apuradas, contextualizadas e com a seriedade que a democracia exige.
Mais sobre este assunto
Olinda registra máxima de 29ºC com previsão de chuva passageira nesta quarta-feira
Incêndio de grandes proporções destrói fábrica de velas na zona sul de São Paulo
São João da Barra transfere ponto facultativo do Dia do Professor para 16 de outubro
TSE define na quinta-feira futuro da eleição estadual no Rio de Janeiro


