Dois jovens brasileiros foram selecionados para integrar um grupo global de 100 ativistas que participará da próxima Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre a Água, em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. O evento, que ocorre entre 8 e 10 de dezembro, busca acelerar a implementação do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS 6), focado em garantir saneamento e disponibilidade de água potável para a população mundial.
Os representantes do Brasil são o ativista Erleyvaldo Bispo, natural de Lagarto, em Sergipe, e a bacharel em direito Laura de Azevedo Viana, de Salvador, na Bahia. Ambos foram escolhidos pelo programa Global Youth Water Envoys, iniciativa do Centro da Juventude Árabe (AYC) que selecionou jovens de 75 países com histórico de atuação ou vivência direta em crises de abastecimento hídrico.
Protagonismo juvenil na agenda climática global
A participação desses jovens não é apenas simbólica. O programa de preparação, que dura dois meses, visa capacitar os delegados para que suas realidades locais influenciem as decisões globais. A intenção dos organizadores, em parceria com o Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos, é transformar a juventude de observadora em agente ativa na construção de políticas públicas de longo prazo.
Para Erleyvaldo Bispo, que também atuou como cofundador do F20 — fórum que articulou demandas de favelas para o G20 —, a conferência é uma oportunidade de pautar a soberania nacional. O ativista, que fundou a ONG Águas Resilientes, pretende levar para o debate internacional os impactos de fenômenos climáticos como o Super El Niño e o risco de colapso da Amazônia, que afeta diretamente o ciclo hidrológico do país.
O impacto do racismo ambiental no acesso à água
A bacharel em direito Laura de Azevedo Viana traz para o fórum uma perspectiva baseada no combate ao racismo ambiental. Moradora de um bairro periférico em Salvador, ela relata que a interrupção no fornecimento de água é uma realidade constante em áreas vulneráveis, enquanto bairros nobres da capital baiana raramente enfrentam o mesmo problema. Essa disparidade, segundo ela, é um reflexo direto de desigualdades sociais profundas.
Como pesquisadora do Instituto Brasileiro de Direito do Mar, Laura defende a união entre o ativismo comunitário e o rigor científico. Para a jovem, a produção de conhecimento acadêmico sobre a governança dos oceanos e a gestão hídrica é uma ferramenta essencial para fundamentar mudanças jurídicas e políticas que reduzam as desigualdades no acesso a recursos básicos.
Soberania e o futuro do Sul Global
A conferência, a terceira do tipo organizada pela ONU desde 1977, reunirá representantes de governos, setor privado e sociedade civil. O foco central será o chamado Sul Global, região que engloba países da América Latina, África e Ásia, onde a infraestrutura de saneamento ainda enfrenta desafios críticos. A mensagem que os brasileiros pretendem transmitir é clara: falar sobre água é, fundamentalmente, falar sobre soberania nacional e sobrevivência.
A trajetória de Erleyvaldo e Laura exemplifica como a experiência de quem vive na ponta da desigualdade pode qualificar o debate internacional. Ao cruzarem o oceano para levar as vozes de comunidades que dependem de carros-pipa ou que enfrentam cortes prolongados, eles reforçam a urgência de investimentos em projetos de resiliência hídrica. Acompanhe o Canal 1 de Notícias para mais atualizações sobre este e outros temas que impactam o cenário nacional e internacional, sempre com o compromisso de trazer informação apurada e relevante para você.
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