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Pilotos Distraídos e Sistema de Degelo Inativo: Cenipa Detalha Causas do Acidente Fatal da Voepass

G1

O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou o relatório final sobre a queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP), ocorrida em agosto de 2024, que resultou na morte de 62 pessoas. O documento, amplamente aguardado, aponta falhas cruciais na conduta da tripulação, revelando que os pilotos mantinham conversas de cunho pessoal e negligenciaram a ativação do sistema de degelo da aeronave, mesmo após múltiplos avisos emitidos pelos equipamentos de bordo.

Falha Humana Preponderante: A Negligência com o Degelo

As investigações revelaram que o avião acionou repetidamente o alerta 'electronic ice detector', indicando condições propícias para o acúmulo de gelo e a necessidade imediata de protocolos como a mudança de velocidade e o acionamento do sistema de degelo. No entanto, segundo o tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, do Cenipa, as gravações da caixa-preta mostram que os pilotos estiveram engajados em diálogos sobre assuntos não relacionados ao voo durante grande parte do percurso.

Em um momento crítico, às 13h11, após o quarto alerta de formação de gelo, o copiloto admitiu ter esquecido de acionar o sistema de degelo. O comandante, por sua vez, sugeriu que todos os sistemas de degelo fossem ligados, e o copiloto, ao questionar a instrução, recebeu a resposta do comandante de que já os havia ativado. Contudo, a análise subsequente dos dados confirmou que o sistema permaneceu desligado, mesmo quando uma quinta detecção de gelo ocorreu às 13h12, enquanto a tripulação prosseguia com as conversas pessoais.

O Rigor da Investigação Técnica do Cenipa

Para identificar os fatores que contribuíram para a tragédia, a Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Cenipa, conduziu uma investigação técnica exaustiva. Esse trabalho compreendeu dezenas de perícias detalhadas, visando a uma reconstrução minuciosa do voo e da sequência de eventos que culminaram na queda da aeronave. Entre os principais procedimentos, destacam-se a análise profunda das duas caixas-pretas – o gravador de voz da cabine (CVR) e o gravador de dados de voo (FDR) –, que permitiram a recriação dos comandos efetuados pelos pilotos e dos alertas emitidos pela aeronave.

Adicionalmente, foram realizados exames rigorosos nos motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol. As condições meteorológicas registradas no dia do acidente foram meticulosamente analisadas, e extensas entrevistas foram conduzidas com pilotos, mecânicos, despachantes e familiares dos tripulantes. A investigação também incluiu o estudo de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da mesma frota, testes em simuladores, um voo experimental com outro ATR 72-500, e a avaliação de registros de manutenção, certificados médicos dos pilotos e outros documentos técnicos. Até mesmo as lâmpadas dos painéis do avião foram examinadas para determinar quais estavam acesas no momento da queda, garantindo uma compreensão completa de todos os sistemas envolvidos.

Avaliação Internacional e o Propósito Preventivo do Relatório

Antes de sua divulgação pública, o relatório do Cenipa passou por um processo de revisão internacional, conforme os protocolos estabelecidos para investigações de acidentes aeronáuticos. O documento foi minuciosamente avaliado por autoridades estrangeiras: o Bureau d'Enquêtes et d'Analyses pour la Sécurité de l'Aviation Civile (BEA), da França, país responsável pelo projeto e fabricação do ATR 72-500, e o Transportation Safety Board (TSB), do Canadá, que projetou os motores da aeronave. Essa revisão assegura a conformidade e a validade das conclusões em âmbito global.

É fundamental salientar que a investigação conduzida pelo Cenipa possui caráter estritamente preventivo. Seu objetivo primário é identificar os fatores contribuintes para o acidente e emitir recomendações que visem aprimorar a segurança da aviação, evitando ocorrências futuras. O relatório técnico, por sua natureza, não busca definir responsabilidades civis nem criminais, deixando essa atribuição para outras esferas jurídicas.

Desdobramentos Legais: Inquérito Criminal e Ações Judiciais das Famílias

Paralelamente à investigação técnica do Cenipa, a Polícia Federal (PF) tem conduzido um inquérito criminal para apurar a existência de crimes e identificar eventuais responsáveis pela tragédia. Em junho, representantes das famílias das vítimas tiveram acesso, pela primeira vez, à transcrição das conversas registradas na cabine de comando. Este documento crucial, parte do laudo elaborado pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC), é peça central para embasar as conclusões da PF e ajudar a esclarecer os momentos finais do voo, incluindo a discussão e a não ativação do sistema de degelo.

A expectativa é que a Polícia Federal conclua seu inquérito em breve, encaminhando o caso ao Ministério Público Federal (MPF) para as devidas análises e possíveis indiciamentos. Após a finalização da investigação criminal, os familiares das vítimas planejam ingressar com uma ação coletiva de responsabilidade civil por danos morais, complementando as ações individuais de indenização que já estão em andamento. A divulgação do relatório do Cenipa traz clareza técnica aos fatas, mas a busca por justiça e reparação segue seu curso nas esferas legal.

Fonte: https://g1.globo.com

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