O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23), acende um alerta sobre a concentração da violência no Brasil ao revelar que todas as dez cidades com as maiores taxas de Mortes Violentas Intencionais (MVI) no país, em 2025, estão localizadas na região Nordeste. O relatório, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, oferece um panorama detalhado das ocorrências criminais e dos desafios enfrentados em diferentes localidades brasileiras.
A Radiografia da Violência no Nordeste
A análise do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta para uma preocupante polarização geográfica da violência. Entre os estados nordestinos, a Bahia se destaca com cinco municípios no ranking das dez cidades mais violentas, seguida pelo Ceará, com três. Pernambuco e Paraíba completam a lista, cada um com uma localidade. A metodologia do estudo considera a taxa de Mortes Violentas Intencionais (MVI) a cada 100 mil habitantes, uma categoria abrangente que engloba homicídio doloso, feminicídio, roubo seguido de morte (latrocínio), lesão corporal seguida de morte, mortes decorrentes de intervenções policiais e óbitos de policiais em serviço ou fora do horário de trabalho, oferecendo uma visão holística da letalidade.
Os Municípios no Epicentro do Conflito
A lista das cidades com os índices mais alarmantes revela uma predominância do Ceará e da Bahia nas primeiras posições. Maranguape, no Ceará, lidera o ranking com uma taxa de 100,3 MVIs por 100 mil habitantes, um número que supera em cinco vezes a média nacional. Em seguida, aparece Eunápolis, na Bahia, com 85,1. Maracanaú, também no Ceará, ocupa a terceira posição (80,7), seguida por Porto Seguro (71,2) e Simões Filho (58,1), ambos na Bahia. Completam o grupo das dez mais violentas: Jequié (BA – 57,4), Caucaia (CE – 56,6), Juazeiro (BA – 55,8), Cabo de Santo Agostinho (PE – 55,1) e Santa Rita (PB – 50,9).
A Teia do Tráfico de Drogas e a Geopolítica Criminal
A principal força motriz por trás desses elevados índices de violência, conforme sublinha o Fórum, é a acirrada disputa entre facções criminosas pelo controle do tráfico de drogas. A localização estratégica de muitos desses municípios desempenha um papel crucial nesse cenário. Maranguape, por exemplo, se tornou um polo atrativo para organizações criminosas devido à sua proximidade com eixos rodoviários vitais, como a BR-22 e a CE065, facilitando o escoamento de ilícitos. Maracanaú, sua vizinha e também no ranking, beneficia-se da proximidade com o Aeroporto Internacional de Fortaleza, ampliando sua relevância logística para o crime organizado. Eunápolis, no extremo sul da Bahia, que não figurava entre as 20 mais violentas no anuário anterior, ascendeu rapidamente ao segundo lugar em 2025, impulsionada por conflitos entre grupos distintos e sua posição estratégica no transporte de drogas, interceptada por duas rodovias nacionais. Esse padrão de violência ligada à logística do tráfico é uma constante nas cidades destacadas.
O Paradoxo Nacional: Queda Geral Versus Focos Regionais
Em contraste com a concentração regional da violência, o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública também revela uma tendência nacional positiva: o número de Mortes Violentas Intencionais (MVI) no Brasil registrou uma queda de 8,2% em 2025. A taxa nacional de MVI diminuiu de 20,6 casos por 100 mil habitantes em 2024 para 19,1 em 2025, atingindo o menor patamar desde o início da medição em 2012. Em termos absolutos, foram contabilizadas 40.775 mortes violentas intencionais no ano passado, em comparação com 44.127 no período anterior. Essa redução geral, contudo, mascara as realidades específicas de municípios e regiões, onde a violência persiste em níveis alarmantes, evidenciando a necessidade de estratégias de segurança pública mais focalizadas.
Apesar da queda nas mortes violentas em âmbito nacional, o panorama revelado pelo anuário para 2025 sublinha a urgência de políticas públicas eficazes e integradas para o combate ao crime organizado e a mitigação dos conflitos territoriais impulsionados pelo tráfico de drogas, especialmente nas cidades do Nordeste. O desafio é conciliar a tendência de melhoria geral com a intervenção cirúrgica nas áreas mais afetadas, garantindo que os esforços de segurança pública alcancem as comunidades onde a violência ainda ceifa vidas de forma desproporcional e impacta profundamente o desenvolvimento social e econômico.