A proposta de encerrar o modelo de escala de trabalho 6×1 tem gerado um intenso debate no cenário nacional, com preocupações crescentes sobre seus potenciais efeitos econômicos. Marcelo Bertoni, vice-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em uma entrevista à CNN 360°, expressou um alerta contundente: a medida pode levar a um aumento significativo nos preços dos alimentos no país. Esta avaliação sublinha a complexidade da legislação trabalhista e suas ramificações diretas para um setor fundamental da economia brasileira.
O Alerta da CNA: Risco de Inflação no Prato do Brasileiro
A principal preocupação articulada pelo vice-presidente da CNA reside na percepção de que a mudança na legislação trabalhista agravaria um cenário já desafiador para o agronegócio: a escassez de mão de obra. Bertoni detalha que, com a alteração do regime de trabalho, os custos de produção no campo estariam fadados a subir. Esta elevação de despesas, por sua vez, seria invariavelmente repassada ao consumidor final, resultando em um incremento nos preços dos produtos alimentícios, impactando diretamente o poder de compra da população nas gôndolas dos supermercados.
As Peculiaridades do Trabalho no Campo
Bertoni ressaltou as características intrínsecas e diferenciadas do trabalho agropecuário, que, segundo ele, não se coadunam com a rigidez de uma escala fixa como a que se discute. Setores como o da leiteria, por exemplo, exigem dedicação contínua, independentemente do dia da semana. Da mesma forma, períodos específicos de plantio e safra impõem longas jornadas, estendendo-se por meses sem a interrupção de sábados, domingos ou feriados. A imposição de um modelo de trabalho menos flexível, na visão da CNA, desconsidera essa realidade operacional do campo, fundamental para a produção de alimentos.
Custos Elevados e o Impacto Direto no Consumidor
O representante da CNA foi enfático ao desenhar a trajetória econômica da proposta. Ele explicou que qualquer acréscimo nos custos de produção, inevitável com a nova escala, não poderá ser absorvido pelas empresas sem comprometer sua viabilidade. Consequentemente, esses custos adicionais seriam integralmente transferidos aos consumidores. Essa cadeia de eventos culminaria na inflação, um fardo que recairia sobre o bolso de cada brasileiro no momento da compra, tornando a alimentação mais cara e afetando o orçamento familiar.
Defesa da Flexibilização e Negociação Direta
Em contraponto à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa o fim da escala 6×1, Bertoni defendeu a PEC 12, de autoria do senador Rogério Marinho. Esta proposta alternativa preconiza maior flexibilidade, permitindo que trabalhadores e empregadores negociem diretamente as condições de trabalho. Ao rebater o argumento sindical de que tais negociações favorecem o empregador, Bertoni argumentou que há uma dependência mútua, equiparando as forças. Ele citou a escala 12×36 na enfermagem, onde profissionais frequentemente acumulam múltiplos empregos, como exemplo de como a flexibilidade pode ser gerenciada pelos trabalhadores para otimizar sua renda e organização pessoal.
Críticas ao Ritmo da Discussão Legislativa
Além das implicações econômicas e das alternativas de modelo de trabalho, o vice-presidente da CNA expressou críticas veementes ao processo legislativo em torno da proposta. Ele apontou a velocidade com que a medida avançou na Câmara dos Deputados como preocupante, destacando a ausência de um debate mais amplo e aprofundado. Bertoni argumentou que a discussão não envolveu adequadamente os representantes do setor agropecuário e que o atual momento, em ano eleitoral, não favorece uma análise técnica e isenta. Ele manifestou a expectativa de que o Senado dedique um tempo significativamente maior e mais profundo ao tema, antes de qualquer deliberação final, dada a complexidade e o impacto potencial da medida.
Em suma, o posicionamento da CNA, articulado por Marcelo Bertoni, destaca as graves preocupações do agronegócio com o fim da escala de trabalho 6×1. O setor alerta para um inevitável aumento dos custos de produção, a consequente inflação nos alimentos e a inadequação de um modelo rígido às particularidades do campo. A defesa de maior flexibilidade e de um debate legislativo mais aprofundado ressalta a necessidade de uma abordagem cuidadosa para uma questão que pode ter amplas repercussões na economia e na mesa de cada brasileiro.
Fonte: https://www.cnnbrasil.com.br